O ar em Allgard Fells não era feito para ser respirado com prazer, era uma mistura química meticulosamente dosada, projetada para manter o corpo humano funcionando no nível ideal de eficiência. Para os milhares de cidadãos que viviam sob o grande domo geodésico, o gosto era o da segurança, uma mistura ozônica, levemente picante, que sempre deixava um resíduo metálico no fundo da língua, como se tivessem acabado de lamber um fio de cobre desencapado. Era o lembrete onipresente, a cada inspiração, de que a humanidade havia trocado o caos selvagem do céu aberto por uma redoma de contenção.
O domo zumbia. Uma frequência tão baixa, tão constante, que a maioria dos ouvidos humanos havia evoluído para ignorá-la em poucas gerações. Mas para Zahra Thaloria, aquele zumbido era o som compassado de um relógio contando os dias para a sua própria ruína.
Ela estava parada no centro geométrico do Pátio de Armas Primário. Acima dela, o sol artificial, uma esfera de fusão controlada suspensa no zênite da cúpula de polímero escuro, brilhava com uma intensidade pálida e anêmica. Não havia o calor reconfortante que os livros antigos e os arquivos censurados descreviam; não havia a sensação de vida beijando a pele. Havia apenas uma radiação filtrada, estéril, que batia contra o couro endurecido e as placas de carbono de sua armadura sem lhe conceder um pingo de conforto.
Zahra ajustou as correias do protetor de ombro esquerdo. Suas mãos, enluvadas em material tático aderente, moveram-se com a precisão mecânica de quem repetiu o mesmo gesto dez mil vezes. O atrito do material rígido contra sua clavícula era familiar. Era um lembrete físico de sua função ali: ser a cadete perfeita. Ela precisava ser. Era a única forma de compensar o fato de ser uma decepção genética.
O pátio de armas, vasto e circular, era um monumento à brutalidade arquitetônica. Ao seu redor, passarelas de aço escovado erguiam-se em níveis estratificados, como as arquibancadas de um coliseu onde a morte e a excelência eram as únicas métricas válidas. Os observadores do Conselho frequentemente se posicionavam ali em cima, sombras indistintas envoltas em sobretudos escuros, pairando como abutres metálicos à espreita do menor sinal de fraqueza.
E em Allgard Fells, não havia fraqueza maior do que ser uma "Nulidade".
O Aetherium havia reescrito a humanidade há um século. Quando a poeira radioativa da Grande Explosão assentou, os sobreviventes descobriram que a substância não apenas envenenava; ela alterava. As crianças começaram a nascer com afinidades. Geralmente, entre os doze e treze anos, durante os picos hormonais da puberdade, o genoma humano cedia à radiação residual. Alguns desenvolviam força cinética, outros podiam manipular a densidade molecular do ar, e os mais temidos, como os Eldorya, acessavam correntes temporais, vislumbrando fragmentos do futuro. Uma habilidade por indivíduo. Essa era a regra imposta pela biologia e brutalmente policiada pelo Conselho.
Mas Zahra havia completado dezesseis anos há três meses. E nada havia acontecido.
Nenhuma faísca. Nenhum aumento de densidade muscular. Nenhuma percepção aguçada. Ela era apenas carne, ossos e pura, teimosa, determinação humana. Para os cidadãos dos níveis inferiores, não ter poderes era normal. Mas para a herdeira do Clã Thaloria, a espinha dorsal militar da cidade, era uma heresia imperdoável.
— Posição de combate, Cadete Thaloria. Não espere que seu oponente tenha pena da sua condição.
A voz grave e rasgada de seu mentor, Comandante Vane, cortou o ar estéril com a precisão letal de um chicote de íons. Ele caminhou lentamente ao redor do círculo de duelo, os passos pesados ressoando no chão de grade metálica. Vane era um homem que parecia ter sido esculpido a partir dos próprios destroços da catástrofe. Seu rosto era um mapa cartográfico de cicatrizes, lembranças de patrulhas infelizes nos limites da muralha, nas zonas mortas onde os filtros falhavam e os horrores mutantes do mundo exterior arranhavam o domo.
Zahra assentiu silenciosamente, a mandíbula contraída em uma linha de puro aço. Ela girou seu bastão de treinamento, uma haste de um metro e meio feita de núcleo de tungstênio e revestimento de absorção de impacto. Ela cravou os olhos em seu oponente do outro lado do círculo: Kael, um cadete de dezesseis anos cujos olhos brilhavam com a autoconfiança de alguém que havia despertado aos treze.
— Pode vir, Kael. — Zahra murmurou, abaixando o centro de gravidade.
Kael não perdeu tempo. Com um grito gutural, ele investiu. O ar ao redor de suas botas pareceu ondular, distorcido por um súbito acúmulo de energia cinética. O Aetherium em seu sangue respondia à sua vontade, concedendo-lhe um impulso de velocidade que um humano comum jamais alcançaria. Ele cruzou os sete metros que os separavam em uma fração de segundo, o bastão dele descendo em um arco brutal mirado diretamente no ombro de Zahra.
Ela não tentou bloquear. Um bloqueio direto contra um golpe impulsionado por energia cinética a faria recuar e quebraria seus ossos, armadura ou não. Em vez disso, ela usou a física a seu favor. Girando sobre o calcanhar esquerdo, Zahra desviou o tronco milímetros antes do impacto. O bastão de Kael rasgou o ar vazio com um zumbido grave, atingindo a grade de aço do chão com um estrondo ensurdecedor.
Aproveitando o desequilíbrio momentâneo de Kael, Zahra girou o próprio bastão, golpeando a parte de trás do joelho dele com precisão cirúrgica. Kael grunhiu e um joelho cedeu. Antes que ele pudesse canalizar mais energia para revidar, Zahra girou o corpo e usou a base de sua arma para desferir um golpe seco sob as costelas flutuantes do garoto.
O ar escapou dos pulmões de Kael, e ele caiu no chão, ofegando dolorosamente.
O pátio mergulhou em silêncio. Zahra recuou dois passos, mantendo a postura defensiva, o peito subindo e descendo ritmicamente, o suor frio escorrendo pela lateral do rosto sujo de fuligem. Ela havia vencido. Com puro instinto, treino exaustivo e inteligência.
Mas não houve aplausos.
Zahra sentiu o peso do olhar antes mesmo de erguer a cabeça. Seus olhos, de um tom âmbar profundo que sempre a fazia parecer um animal encurralado, varreram a galeria de observação superior.
Lá estava ela. Elena Thaloria. A Matriarca. A Comandante Suprema. Sua mãe.
Envolta em um sobretudo negro impecável que parecia absorver a pouca luz do domo, Elena observava a arena. Sua postura era ridiculamente rígida, a personificação da lei marcial. Elena não estava olhando para Kael caído; ela olhava para Zahra. E em seus olhos não havia o orgulho de uma mãe que viu a filha derrotar um oponente aprimorado. Havia apenas desprezo. Frio, clínico e absoluto.
Para Elena, a vitória de Zahra era feia. Era arcaica. Uma demonstração de esforço bruto que não pertencia ao novo mundo. Uma Thaloria deveria esmagar seus inimigos com a força do Aetherium, com o brilho da evolução, não rastejar na sujeira usando física básica de combate corpo-a-corpo. A falha genética de Zahra era uma mancha no legado da mulher mais poderosa da cidade.
— Fim da simulação. — Vane declarou, a voz seca. Ele olhou para Zahra, seus olhos calejados contendo uma mistura indescritível de pena e severidade. — Reflexos adequados, Cadete Thaloria. Mas táticas evasivas não vão mantê-la viva contra um Mutante Nível 4 além das muralhas. Se não há poder para ser canalizado, há apenas um limite físico para a utilidade de um soldado. Dispensados.
As palavras cortaram mais fundo do que qualquer lâmina de polímero. "Limite de utilidade". Era o código do Conselho para "mão de obra descartável".
Zahra guardou a arma no suporte magnético de suas costas, virou-se em sincronia com os outros cadetes e marchou para os vestiários, os ombros tensos, tentando ignorar os sussurros de seus colegas quando passava por eles.
A herdeira vazia. O erro genético.
Ouviram dizer que a Matriarca vai deserdá-la no próximo ciclo.
Zahra trancou-se em um dos boxes de descontaminação individuais. A água quente, um luxo permitido apenas à elite militar e administrativa, bateu com força contra seus ombros nus, lavando o suor e a sujeira, mas incapaz de limpar a frustração tóxica que envenenava seu estômago. Ela encostou a testa no ladrilho de polímero frio, fechando os olhos.
Ela tentou acessar algo, qualquer coisa, dentro de si. Puxou a respiração para o fundo dos pulmões, buscou uma centelha, um calor no sangue, uma vibração no nervo óptico. Nada. O silêncio dentro de sua biologia era ensurdecedor. Ela era uma carcaça vazia em um mundo de deuses menores.
Após vinte minutos, já vestida com o uniforme tático de transição calças pretas cargo e uma jaqueta de gola alta, ela desviou do caminho direto para o refeitório. Ela precisava respirar um ar que não estivesse saturado de julgamento militar.
Com passos calculados e silenciosos, Zahra adentrou a rede de corredores de serviço primários, um labirinto de tubulações quentes e conduítes de resfriamento que conectava o Distrito Thaloria ao Distrito Drakarholm. Era a "barriga" da cidade, um local negligenciado pela vigilância de alta prioridade. As luzes vermelhas de emergência piscavam espaçadamente, lançando sombras longas sobre os encanamentos enferrujados. O ar cheirava a óleo graxo e poeira antiga.
Foi quando o cheiro familiar de fumaça proibida invadiu suas narinas. Tabaco rústico misturado com especiarias ilegais.
— Você está deixando seu oponente entrar na sua cabeça antes mesmo da luta começar, Z.
A voz era um barítono aveludado, carregado de uma ironia preguiçosa que parecia vibrar no espaço escuro.
Zahra parou, os músculos das costas relaxando instintivamente, embora ela se recusasse a demonstrar. Das sombras espessas de uma viga de suporte, Richard Fire se materializou.
Ao contrário dos oficiais de seu clã, os Drakarholm, que ostentavam a rigidez burocrática em cada fibra de seus ternos cinza-chumbo, Richard usava suas roupas como um protesto silencioso. A gravata estava desfeita e jogada nos ombros, o colarinho da blusa aberto, e o sobretudo pendia displicente. Ele era a própria imagem do caos controlado. A luz tênue avermelhada banhava os ângulos afiados de seu rosto, iluminando a pele clara, os cabelos escuros ligeiramente desgrenhados e os olhos cinzentos, olhos perspicazes, insubordinados e que, surpreendentemente, nunca olhavam para Zahra como se ela estivesse quebrada.
— E você está correndo o risco de ser executado por porte de narcóticos clandestinos e invasão de perímetro militar, Administrador. — Zahra respondeu, forçando uma postura reta, mas não conseguindo conter um pequeno sorriso que se formou no canto dos lábios.
— Eu ajustei os sensores térmicos deste setor uma hora atrás. Para os cães de guarda eletrônicos da sua mãe, este corredor não tem assinaturas de calor biológico. Somos fantasmas, Guardiã. — Ele deu um passo à frente. O movimento dele era predatório, suave, silencioso.
Ele parou a centímetros de distância. A proximidade física de Richard era algo com que o treinamento militar rigoroso de Zahra não a havia preparado para lidar. O calor do corpo dele emanava através do espaço estreito entre eles, e o cheiro inebriante de sua essência pessoal, proibida pela padronização da cidade, fez o coração de Zahra errar uma batida.
— Como você sabe da luta? — ela perguntou, o sorriso desaparecendo, substituído pela amargura do dia. — Vocês, ratos de biblioteca dos Drakarholm, não deveriam estar monitorando o fluxo das represas de purificação de água?
— Eu tenho meus passatempos. — Richard murmurou, os olhos descendo brevemente para a clavícula dela, acompanhando a linha do pescoço rígido, antes de voltarem a encontrar os dela. — Eu acesso os feeds das câmeras do Pátio de Armas. Você esmagou Kaelen. Foi pura poesia tática.
— Poesia que não serve para nada. — Zahra rebateu, a dor vazando na voz, dura e afiada. Ela deu as costas para ele, encostando a cabeça em um duto frio. — Vane está certo. E minha mãe... Rick, ela olhou para mim como se eu fosse um pedaço de carne sintética estragada. Eu tenho dezesseis anos. A janela de mutação já se fechou. Eu não tenho afinidade com o Aetherium. Eu sou o último galho morto da grande árvore dos Thaloria. Em algumas semanas, durante o Festival do Ciclo, ela vai me rebaixar oficialmente para as patrulhas das docas de expurgo. Eu serei jogada na muralha exterior.
A mão de Richard aterrissou em seu ombro, grande, quente e surpreendentemente gentil. Ele a virou de volta para encarar o corredor, e a expressão no rosto dele não tinha nenhum traço da habitual ironia. Estava sério. Uma tempestade prestes a quebrar.
— A muralha exterior não é o fim do mundo, Zahra. E o que a sua mãe pensa sobre a evolução não é a verdade absoluta. O Conselho governa na base da supressão e do medo. Eles veneram o Aetherium como um milagre domesticado, mas eles não sabem nada. Eles não sabem por que alguns sofrem mutações e outros não. E o mais importante... eles não sabem o que tem lá embaixo.
Zahra franziu a testa, o instinto militar despertando diante do tom subversivo.
— Lá embaixo? Do que você está falando, Richard? As minas inferiores estão seladas desde o vazamento radioativo de cinquenta anos atrás.
Os lábios de Richard se curvaram em um sorriso lento e perigosamente sedutor. Ele tirou a mão do ombro dela e enfiou-a no bolso interno do sobretudo, puxando um cartão de acesso retangular. Não era o cartão prata padrão dos burocratas. Era preto. Liso, sem nenhuma numeração, feito de uma liga de tungstênio densa que Zahra só tinha visto nas aulas sobre tecnologia pré-explosão.
— Eu interceptei um pacote de dados encriptado nos servidores mortos dos Drakarholm ontem à noite. — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela, conspiratório. O hálito quente de Richard arrepiava os pequenos pelos da nuca de Zahra. — Códigos antigos. Pré-cataclismo. O Conselho não selou os níveis inferiores por causa da radiação, Zah. Eles os selaram porque encontraram algo. Uma anomalia não mapeada do Projeto Aether original. Uma falha nas fundações da cidade. O núcleo não está estabilizado.
O estômago de Zahra gelou.
— Isso é heresia Nível Um. Se alguém te ouvir...
— Ninguém vai ouvir. — A voz dele era uma promessa, suave e magnética. — Você quer saber por que não despertou? Quer saber por que seu sangue não canta como o dos seus colegas alienados? Talvez você não seja uma falha. Talvez o Aetherium processado que respiramos aqui em cima seja muito diluído. Muito domesticado.
Ele pegou a mão enluvada de Zahra e depositou o cartão negro e pesado em sua palma, fechando os dedos dela ao redor do objeto. O toque dele demorou mais do que o necessário, a ponta dos dedos calejados de Richard deslizando sensualmente pela lateral da luva dela.
— Eu decodifiquei os acessos do Setor 12. — Richard continuou, os olhos cinzentos travados nos âmbares dela, desafiando-a. — A Zona Morta. Há um conduíte primário de Aetherium lá. Intacto. Pulsando na sua forma mais pura desde antes das muralhas serem erguidas. Eu vou descer esta noite, durante a troca de turno de patrulha, à meia-noite. Quero que você venha comigo.
A proposta era insanidade pura. Descer aos setores proibidos era crime de traição. Explorar ruínas tecnológicas não mapeadas sem os trajes de radiação da Ordem da Pureza era suicídio biológico. E fazer tudo isso com o homem de um clã rival que fazia seu sangue ferver de maneiras totalmente ilegais... era assinar a própria sentença de morte.
Mas, enquanto Zahra segurava aquele cartão negro, imaginando o que poderia estar enterrado nas raízes daquela prisão de aço e mentiras, a humilhação do dia e o olhar de gelo de sua mãe evaporaram. Havia algo dentro de Zahra, uma fome ancestral que os Thaloria tentavam soterrar sob dogmas de obediência, que finalmente estava acordando.
— É suicídio. As patrulhas de purgação fazem rondas irregulares. Há drones térmicos. — ela argumentou, mas sua voz não tinha força de proibição. Era apenas uma busca por garantias.
O sorriso de Richard se alargou. Ele levou os nós dos dedos dela aos lábios e deixou um beijo rápido e ardente na junta exposta da luva tática. O gesto fez as pernas de Zahra formigarem.
— Apenas confie em mim, Guardiã. Eu sou o melhor fantasma que esta cidade já viu. Meia-noite. No final do túnel de ventilação C-4. Venha pronta para o escuro.
Antes que ela pudesse dizer sim, ou mandá-lo para o inferno por ser tão irresponsável, Richard recuou para as sombras das tubulações. Ele desapareceu como fumaça, deixando para trás apenas o eco do cheiro do tabaco proibido e o peso colossal do cartão de acesso queimando na mão dela.
Zahra engoliu seco, olhando para o vazio escarpado de fiação e metal. O relógio em sua mente havia parado de contar os dias para sua ruína. Agora, ele estava marcando os minutos para o momento em que ela quebraria todas as regras da cidade.