A primeira coisa que aprendi sobre a loucura é que ela não anuncia a sua chegada com gritos e camisas de força. Ela entra de fininho. Instala-se nos espaços em branco da sua memória, nos segundos que você pisca e, quando abre os olhos, percebe que o sol já se pôs e você não faz ideia de como as últimas horas desapareceram.
Eu estava sentada no chão frio do meu banheiro quando a consciência voltou.
A cerâmica sob as minhas coxas estava gelada, mas o meu corpo ardia como se eu estivesse com uma febre de quarenta graus. Puxei o ar com força, engasgando-me com a própria saliva, enquanto os meus pulmões tentavam lembrar como funcionavam. O cheiro de pinho artificial do desinfetante misturava-se a um aroma muito mais denso e perturbador. Cheiro de terra molhada. Folhas esmagadas. E fumaça.
Pisquei os olhos repetidas vezes, a visão turva lutando para focar nos meus próprios joelhos. Havia sujeira neles. Terra preta encrustada sob as unhas das minhas mãos, como se eu estivesse cavando com os dedos nus.
— O que... — A minha voz não passou de um ruído seco. A minha garganta parecia ter sido esfregada com lixa.
Apoiei as mãos na borda da banheira e forcei o meu corpo a levantar. Os meus músculos protestaram, doloridos e exaustos, como se eu tivesse corrido uma maratona ou travado uma guerra da qual não me lembrava. Ergui o rosto na direção do espelho acima da pia e o reflexo que me encarou de volta me deu um calafrio na espinha.
Lilian Bane. Vinte anos, órfã de mãe, negligenciada por um pai afundado no uísque e irmã de um adolescente que tentava se destruir a cada dia. Tudo isso estava estampado nas olheiras roxas e profundas sob os meus olhos castanhos. Mas havia algo mais. Uma rigidez na postura que não era minha. Um brilho febril, quase altivo, na íris.
E então, o detalhe que fez o meu coração falhar uma batida.
O meu nariz não estava sangrando, mas a toalha branca jogada sobre a borda da pia tinha manchas escuras e circulares. Sangue seco. E não era meu.
Recuei, batendo as costas contra os azulejos frios da parede oposta. A respiração acelerou até se tornar uma hiperventilação descontrolada. Fechei os olhos com força, apertando as têmporas com as palmas das mãos sujas de terra. Pense, Lilian. Pense.
A última coisa de que eu me lembrava era de estar sentada na minha cama, olhando para a chuva batendo contra o vidro da janela do quarto. Eram três da tarde de uma terça-feira comum e cinzenta de novembro. Olhei para o relógio digital no balcão do banheiro.
04:12 da manhã. Quarta-feira.
Treze horas. Eu havia perdido treze horas da minha vida, e a terra nas minhas mãos provava que eu não tinha passado esse tempo dormindo no chão do banheiro.
Deslizei até o chão novamente, abraçando as pernas. As lágrimas vieram, quentes e silenciosas. Não era a primeira vez. Os "apagões", como eu tentava chamá-los racionalmente, começaram há cerca de dois meses. No início, eram minutos. Eu estava lavando a louça e, de repente, a água estava transbordando da pia e as minhas mãos estavam paralisadas, o olhar fixo no vazio. Depois, passaram a ser horas. Eu acordava no meio da sala de estar, no escuro, sussurrando palavras em um idioma gutural e áspero que eu nunca havia estudado.
Mas esta noite foi o pior episódio. Treze horas. Sujeira. Sangue em uma toalha.
"Nós precisamos voltar para a floresta."
O pensamento não foi meu. Ele ecoou na minha mente, invasivo e claro como um sino, acompanhado de um eco fantasma de fúria e frustração. Não parecia o meu monólogo interior; parecia uma transmissão de rádio interceptada. Uma voz feminina, musical e carregada de uma arrogância fria, banhada em ódio ancestral.
Soquei a lateral da minha própria cabeça.
— Pare. — sussurrei no silêncio do banheiro. — Por favor, pare. Eu estou ficando louca.
A voz não respondeu, mas uma onda de calor subiu pela minha nuca. Não o calor de um rubor, mas um calor que quase beirava a febre, uma energia vibrante e perigosa que me fez sentir, por um mísero segundo, que eu poderia arrancar o espelho da parede com um simples movimento de pulso.
Era exaustivo. Viver dentro do meu próprio corpo havia se tornado uma ocupação em tempo integral, um cabo de guerra constante contra um invasor que eu nem sequer podia ver.
Levantei-me, joguei a toalha manchada no fundo do cesto de roupas sujas e liguei a torneira, esfregando as mãos com sabão até a pele fina arder e ficar vermelha. A terra demorou a sair, agarrada às cutículas. Joguei água gelada no rosto. A água me ancorava. Fazia-me sentir humana, a gravidade, a realidade física.
Caminhei em silêncio pelo corredor do apartamento. O cheiro de bebida barata anunciou a presença do meu pai antes mesmo que eu chegasse à sala. Ele estava esparramado no sofá, com uma das pernas pendendo para fora, uma garrafa quase vazia no tapete. O ronco dele era a única trilha sonora daquele lar destruído. Passei direto, sem sentir pena, sem sentir raiva. Apenas um vazio entorpecente.
Tranquei-me no meu quarto. O ar estava viciado. Tudo ali parecia gritar sobre a garota que eu costumava ser antes de o mundo inteiro desmoronar, antes do acidente de carro que tirou a vida da minha mãe, e antes... dele.
Meus olhos foram, como que puxados por uma força magnética invisível, para o mural de cortiça acima da escrivaninha.
As fotos estavam espalhadas de forma caótica. Polaroides desbotadas. O sorriso torto, os cabelos escuros e levemente cacheados, os olhos profundos que costumavam me ler como um livro aberto. Jack.
Um espasmo de dor atravessou o meu peito, tão violento que tive que me apoiar na cadeira para não cair.
Se a morte da minha mãe me quebrou, a partida de Jack me estilhaçou em um nível subatômico. Todo mundo dizia que o luto nos aproxima, mas com ele foi o oposto. O nosso relacionamento sempre teve uma cadência sombria, um peso que eu nunca soube explicar. Quando Jack estava por perto, o ar parecia mais denso. O toque dele não apenas me aquecia; me entorpecia. Ele era uma obsessão, uma âncora que me impedia de afundar na depressão da minha casa. Nós éramos tóxicos um para o outro, codependentes, queimando a nossa juventude em um romance que consumia todo o oxigênio ao redor.
E, há exatos seis meses, ele arrumou as malas.
Lembro-me daquela noite com uma clareza que me causava náuseas. A luz prateada da lua entrando pela janela. Ele parado ali, perto da porta, com a mochila no ombro. Ele não chorou. Ele não hesitou.
"Nós somos de mundos diferentes, Lilih.", a voz dele ressoou na minha memória, fria e cirúrgica. "Você tem uma vida pela frente. Fragilidades. Limites. E eu jamais poderei te amar com essa mesma... pequenez."
Ele virou as costas e saiu. Sem explicações, sem pedir desculpas. Deixou-me sangrando no chão daquele mesmo quarto, e a dor que se instalou no buraco onde costumava ficar o meu coração abriu uma fissura na minha alma.
E foi por essa fissura que a escuridão entrou. Foi exatamente ali que os pesadelos começaram.
Olhando para a foto dele agora, o luto da garota abandonada lutou para subir à superfície, mas algo o empurrou para baixo. Violentamente.
A entidade que dormia no meu crânio se remexeu. De repente, a tristeza pela ausência de Jack foi substituída por um ódio tão incandescente, tão predatório e insano, que o meu sangue pareceu ferver.
Os meus dedos se contraíram involuntariamente. Olhei para a fotografia de Jack pregada no centro do mural.
A mente invasora não via o rapaz que quebrou o meu coração. Ela via uma linhagem. Ela via inimigos. A voz feminina sussurrou novamente na minha cabeça, clara e afiada como uma adaga de vidro:
"Se ele cruzar o meu caminho, eu vou carbonizá-lo."
No exato instante em que esse pensamento ecoou, um chiado baixo soou no quarto.
As minhas pupilas dilataram. A polaroide de Jack, presa no mural de cortiça, começou a escurecer nas bordas. O papel fotográfico enrugou, a imagem do sorriso dele distorceu-se e, em um milésimo de segundo, as bordas da foto entraram em combustão.
Uma chama alaranjada, pequena mas furiosa, consumiu a fotografia em um piscar de olhos, transformando-a em cinzas negras que flutuaram até cair no teclado do meu computador.
Soltei um grito abafado, recuando aos tropeços até as minhas costas baterem contra a porta do quarto.
O mural estava intacto. As outras fotos não foram queimadas. Apenas a dele.
Eu olhei para as minhas mãos, que ainda tremiam. Não havia fósforos, não havia isqueiro. Havia apenas uma garota de vinte anos, no meio da madrugada, percebendo com absoluto terror que os monstros não estavam mais restritos aos seus sonhos. Eles estavam sangrando para a realidade, usando as emoções quebradas do meu luto humano como gatilho.
Peguei o celular no bolso do casaco que estava atirado na cama, as mãos escorregadias de suor frio. As minhas opções eram escassas: ligar para o Paul e ser internada compulsoriamente em uma ala psiquiátrica antes do amanhecer, ou ligar para a única pessoa que falava sobre energia e auras sem rir.
Disquei o número da Sara.
Um, dois, três toques longos no silêncio do meu quarto. A chama do papel queimado ainda deixava um cheiro de enxofre no ar.
— Lilih? — A voz da Sara soou áspera pelo sono, mas alerta. Ela conhecia a minha depressão, sabia que eu não ligaria de madrugada a menos que estivesse à beira do precipício.
— Sara... eu não consigo mais. — A minha voz desabou, as defesas finalmente cedendo. Deixei o meu corpo escorregar pela porta até sentar no chão abraçando os joelhos. — Preciso da sua ajuda. Você sempre falou daquelas coisas. Sobre energias invasivas, sobre pessoas sentindo presenças. Eu achei que você fosse apenas a esotérica do grupo, mas...
— Respira, Lilian. O que aconteceu? — A voz dela mudou. Todo o resquício de sono sumiu. Havia uma seriedade afiada, quase militar, na forma como ela falou.
— Eu não estou tendo apenas pesadelos. Eu estou perdendo tempo, Sara. Treze horas sumiram hoje. E algo acabou de pegar fogo no meu quarto só porque eu... só porque eu pensei nisso. — Eu solucei, o pânico estrangulando as minhas palavras. — Tem alguma coisa na minha cabeça. E ela me odeia.
O silêncio que se seguiu do outro lado da linha foi o mais longo da minha vida. Eu esperei que ela me mandasse procurar um médico. Esperei ouvir o som da ciência humana tentando justificar o impossível.
— Arrume uma mochila com algumas roupas, Lilian.
— O quê? — pisquei, surpresa com a objetividade do tom dela.
— Não fale com o seu pai, não deixe nenhum bilhete. Vista algo quente e saia de casa agora. Vai chover daqui a pouco. — Sara ordenou, e não era um conselho de amiga; era uma ordem. — O que está na sua cabeça, Lilian, não é esquizofrenia. É uma sobrevivente. E se o que habita em você é poderoso o suficiente para manifestar o fogo físico no plano material sem catalisador... nós temos um problema gigantesco.
— Nós? Sara, do que você está falando? Para onde eu vou?
— Venha para o meu apartamento. Eu vou chamar alguém que sabe exatamente como lidar com as cicatrizes da Fenda. Alguém que lidera o que sobrou de nós.
— O que sobrou de quem?! — berrei, levantando-me, a exaustão abrindo caminho para o desespero de quem não sabe se está entrando em um hospício ou em um abatedouro.
Sara suspirou pesadamente do outro lado da linha. A voz dela carregava séculos de cansaço.
— Apenas venha, Lilian. E pelo amor de Deus, se você sentir o ar esquentar, concentre-se na sua própria respiração, porque se o Herdeiro sentir o gosto da sua magia pelas ruas... ele não será o único a ir atrás de você.
Ela desligou.
Eu olhei para o celular, e depois para as cinzas escurecendo a minha mesa. O apartamento parecia mais silencioso do que nunca, mas agora, não era um silêncio vazio. Era o silêncio de quem prende a respiração antes da guerra.