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Capítulo 1

A Anatomia da Loucura

A Floresta Proibida de Grangstill · por L. Barcellos

A pri­mei­ra coi­sa que apren­di so­bre a lou­cu­ra é que ela não anun­cia a sua che­ga­da com gri­tos e ca­mi­sas de for­ça. Ela en­tra de fi­ni­nho. Ins­ta­la-se nos es­pa­ços em bran­co da sua me­mó­ria, nos se­gun­dos que você pis­ca e, quan­do abre os olhos, per­ce­be que o sol já se pôs e você não faz ideia de como as úl­ti­mas ho­ras de­sa­pa­re­ce­ram.

​Eu es­ta­va sen­ta­da no chão frio do meu ba­nhei­ro quan­do a cons­ci­ên­cia vol­tou.

​A ce­râ­mi­ca sob as mi­nhas co­xas es­ta­va ge­la­da, mas o meu cor­po ar­dia como se eu es­ti­ves­se com uma fe­bre de qua­ren­ta graus. Pu­xei o ar com for­ça, en­gas­gan­do-me com a pró­pria sa­li­va, en­quan­to os meus pul­mões ten­ta­vam lem­brar como fun­ci­o­na­vam. O chei­ro de pi­nho ar­ti­fi­ci­al do de­sin­fe­tan­te mis­tu­ra­va-se a um aro­ma mui­to mais den­so e per­tur­ba­dor. Chei­ro de ter­ra mo­lha­da. Fo­lhas es­ma­ga­das. E fu­ma­ça.

​Pis­quei os olhos re­pe­ti­das ve­zes, a vi­são tur­va lu­tan­do para fo­car nos meus pró­pri­os jo­e­lhos. Ha­via su­jei­ra ne­les. Ter­ra pre­ta en­crus­ta­da sob as unhas das mi­nhas mãos, como se eu es­ti­ves­se ca­van­do com os de­dos nus.

​— O que... — A mi­nha voz não pas­sou de um ru­í­do seco. A mi­nha gar­gan­ta pa­re­cia ter sido es­fre­ga­da com lixa.

​A­poi­ei as mãos na bor­da da ba­nhei­ra e for­cei o meu cor­po a le­van­tar. Os meus mús­cu­los pro­tes­ta­ram, do­lo­ri­dos e exaus­tos, como se eu ti­ves­se cor­ri­do uma ma­ra­to­na ou tra­va­do uma guer­ra da qual não me lem­bra­va. Er­gui o ros­to na di­re­ção do es­pe­lho aci­ma da pia e o re­fle­xo que me en­ca­rou de vol­ta me deu um ca­la­frio na es­pi­nha.

​Li­li­an Bane. Vin­te anos, órfã de mãe, ne­gli­gen­ci­a­da por um pai afun­da­do no uís­que e irmã de um ado­les­cen­te que ten­ta­va se des­tru­ir a cada dia. Tudo isso es­ta­va es­tam­pa­do nas olhei­ras ro­xas e pro­fun­das sob os meus olhos cas­ta­nhos. Mas ha­via algo mais. Uma ri­gi­dez na pos­tu­ra que não era mi­nha. Um bri­lho fe­bril, qua­se al­ti­vo, na íris.

​E en­tão, o de­ta­lhe que fez o meu co­ra­ção fa­lhar uma ba­ti­da.

​O meu na­riz não es­ta­va san­gran­do, mas a to­a­lha bran­ca jo­ga­da so­bre a bor­da da pia ti­nha man­chas es­cu­ras e cir­cu­la­res. San­gue seco. E não era meu.

​Re­cu­ei, ba­ten­do as cos­tas con­tra os azu­le­jos fri­os da pa­re­de opos­ta. A res­pi­ra­ção ace­le­rou até se tor­nar uma hi­per­ven­ti­la­ção des­con­tro­la­da. Fe­chei os olhos com for­ça, aper­tan­do as têm­po­ras com as pal­mas das mãos su­jas de ter­ra. Pen­se, Li­li­an. Pen­se.

​A úl­ti­ma coi­sa de que eu me lem­bra­va era de es­tar sen­ta­da na mi­nha cama, olhan­do para a chu­va ba­ten­do con­tra o vi­dro da ja­ne­la do quar­to. Eram três da tar­de de uma ter­ça-fei­ra co­mum e cin­zen­ta de no­vem­bro. Olhei para o re­ló­gio di­gi­tal no bal­cão do ba­nhei­ro.

​04:12 da ma­nhã. Quar­ta-fei­ra.

​Tre­ze ho­ras. Eu ha­via per­di­do tre­ze ho­ras da mi­nha vida, e a ter­ra nas mi­nhas mãos pro­va­va que eu não ti­nha pas­sa­do esse tem­po dor­min­do no chão do ba­nhei­ro.

​Des­li­zei até o chão no­va­men­te, abra­çan­do as per­nas. As lá­gri­mas vi­e­ram, quen­tes e si­len­ci­o­sas. Não era a pri­mei­ra vez. Os "apa­gões", como eu ten­ta­va cha­má-los ra­ci­o­nal­men­te, co­me­ça­ram há cer­ca de dois me­ses. No iní­cio, eram mi­nu­tos. Eu es­ta­va la­van­do a lou­ça e, de re­pen­te, a água es­ta­va trans­bor­dan­do da pia e as mi­nhas mãos es­ta­vam pa­ra­li­sa­das, o olhar fixo no va­zio. De­pois, pas­sa­ram a ser ho­ras. Eu acor­da­va no meio da sala de es­tar, no es­cu­ro, sus­sur­ran­do pa­la­vras em um idi­o­ma gu­tu­ral e ás­pe­ro que eu nun­ca ha­via es­tu­da­do.

​Mas esta noi­te foi o pior epi­só­dio. Tre­ze ho­ras. Su­jei­ra. San­gue em uma to­a­lha.

​"Nós pre­ci­sa­mos vol­tar para a flo­res­ta."

​O pen­sa­men­to não foi meu. Ele eco­ou na mi­nha men­te, in­va­si­vo e cla­ro como um sino, acom­pa­nha­do de um eco fan­tas­ma de fú­ria e frus­tra­ção. Não pa­re­cia o meu mo­nó­lo­go in­te­ri­or; pa­re­cia uma trans­mis­são de rá­dio in­ter­cep­ta­da. Uma voz fe­mi­ni­na, mu­si­cal e car­re­ga­da de uma ar­ro­gân­cia fria, ba­nha­da em ódio an­ces­tral.

​So­quei a la­te­ral da mi­nha pró­pria ca­be­ça.

— Pare. — sus­sur­rei no si­lên­cio do ba­nhei­ro. — Por fa­vor, pare. Eu es­tou fi­can­do lou­ca.

​A voz não res­pon­deu, mas uma onda de ca­lor su­biu pela mi­nha nuca. Não o ca­lor de um ru­bor, mas um ca­lor que qua­se bei­ra­va a fe­bre, uma ener­gia vi­bran­te e pe­ri­go­sa que me fez sen­tir, por um mí­se­ro se­gun­do, que eu po­de­ria ar­ran­car o es­pe­lho da pa­re­de com um sim­ples mo­vi­men­to de pul­so.

​Era exaus­ti­vo. Vi­ver den­tro do meu pró­prio cor­po ha­via se tor­na­do uma ocu­pa­ção em tem­po in­te­gral, um cabo de guer­ra cons­tan­te con­tra um in­va­sor que eu nem se­quer po­dia ver.

​Le­van­tei-me, jo­guei a to­a­lha man­cha­da no fun­do do ces­to de rou­pas su­jas e li­guei a tor­nei­ra, es­fre­gan­do as mãos com sa­bão até a pele fina ar­der e fi­car ver­me­lha. A ter­ra de­mo­rou a sair, agar­ra­da às cu­tí­cu­las. Jo­guei água ge­la­da no ros­to. A água me an­co­ra­va. Fa­zia-me sen­tir hu­ma­na, a gra­vi­da­de, a re­a­li­da­de fí­si­ca.

​Ca­mi­nhei em si­lên­cio pelo cor­re­dor do apar­ta­men­to. O chei­ro de be­bi­da ba­ra­ta anun­ci­ou a pre­sen­ça do meu pai an­tes mes­mo que eu che­gas­se à sala. Ele es­ta­va es­par­ra­ma­do no sofá, com uma das per­nas pen­den­do para fora, uma gar­ra­fa qua­se va­zia no ta­pe­te. O ron­co dele era a úni­ca tri­lha so­no­ra da­que­le lar des­tru­í­do. Pas­sei di­re­to, sem sen­tir pena, sem sen­tir rai­va. Ape­nas um va­zio en­tor­pe­cen­te.

​Tran­quei-me no meu quar­to. O ar es­ta­va vi­ci­a­do. Tudo ali pa­re­cia gri­tar so­bre a ga­ro­ta que eu cos­tu­ma­va ser an­tes de o mun­do in­tei­ro des­mo­ro­nar, an­tes do aci­den­te de car­ro que ti­rou a vida da mi­nha mãe, e an­tes... dele.

​Meus olhos fo­ram, como que pu­xa­dos por uma for­ça mag­né­ti­ca in­vi­sí­vel, para o mu­ral de cor­ti­ça aci­ma da es­cri­va­ni­nha.

​As fo­tos es­ta­vam es­pa­lha­das de for­ma ca­ó­ti­ca. Po­la­roi­des des­bo­ta­das. O sor­ri­so tor­to, os ca­be­los es­cu­ros e le­ve­men­te ca­che­a­dos, os olhos pro­fun­dos que cos­tu­ma­vam me ler como um li­vro aber­to. Jack.

​Um es­pas­mo de dor atra­ves­sou o meu pei­to, tão vi­o­len­to que tive que me apoi­ar na ca­dei­ra para não cair.

​Se a mor­te da mi­nha mãe me que­brou, a par­ti­da de Jack me es­ti­lha­çou em um ní­vel su­ba­tô­mi­co. Todo mun­do di­zia que o luto nos apro­xi­ma, mas com ele foi o opos­to. O nos­so re­la­ci­o­na­men­to sem­pre teve uma ca­dên­cia som­bria, um peso que eu nun­ca sou­be ex­pli­car. Quan­do Jack es­ta­va por per­to, o ar pa­re­cia mais den­so. O to­que dele não ape­nas me aque­cia; me en­tor­pe­cia. Ele era uma ob­ses­são, uma ân­co­ra que me im­pe­dia de afun­dar na de­pres­são da mi­nha casa. Nós éra­mos tó­xi­cos um para o ou­tro, co­de­pen­den­tes, quei­man­do a nos­sa ju­ven­tu­de em um ro­man­ce que con­su­mia todo o oxi­gê­nio ao re­dor.

​E, há exa­tos seis me­ses, ele ar­ru­mou as ma­las.

​Lem­bro-me da­que­la noi­te com uma cla­re­za que me cau­sa­va náu­se­as. A luz pra­te­a­da da lua en­tran­do pela ja­ne­la. Ele pa­ra­do ali, per­to da por­ta, com a mo­chi­la no om­bro. Ele não cho­rou. Ele não he­si­tou.

​"Nós so­mos de mun­dos di­fe­ren­tes, Li­lih.", a voz dele res­so­ou na mi­nha me­mó­ria, fria e ci­rúr­gi­ca. "Você tem uma vida pela fren­te. Fra­gi­li­da­des. Li­mi­tes. E eu ja­mais po­de­rei te amar com essa mes­ma... pe­que­nez."

​Ele vi­rou as cos­tas e saiu. Sem ex­pli­ca­ções, sem pe­dir des­cul­pas. Dei­xou-me san­gran­do no chão da­que­le mes­mo quar­to, e a dor que se ins­ta­lou no bu­ra­co onde cos­tu­ma­va fi­car o meu co­ra­ção abriu uma fis­su­ra na mi­nha alma.

​E foi por essa fis­su­ra que a es­cu­ri­dão en­trou. Foi exa­ta­men­te ali que os pe­sa­de­los co­me­ça­ram.

​O­lhan­do para a foto dele ago­ra, o luto da ga­ro­ta aban­do­na­da lu­tou para su­bir à su­per­fí­cie, mas algo o em­pur­rou para bai­xo. Vi­o­len­ta­men­te.

​A en­ti­da­de que dor­mia no meu crâ­nio se re­me­xeu. De re­pen­te, a tris­te­za pela au­sên­cia de Jack foi subs­ti­tu­í­da por um ódio tão in­can­des­cen­te, tão pre­da­tó­rio e in­sa­no, que o meu san­gue pa­re­ceu fer­ver.

​Os meus de­dos se con­tra­í­ram in­vo­lun­ta­ri­a­men­te. Olhei para a fo­to­gra­fia de Jack pre­ga­da no cen­tro do mu­ral.

​A men­te in­va­so­ra não via o ra­paz que que­brou o meu co­ra­ção. Ela via uma li­nha­gem. Ela via ini­mi­gos. A voz fe­mi­ni­na sus­sur­rou no­va­men­te na mi­nha ca­be­ça, cla­ra e afi­a­da como uma ada­ga de vi­dro:

​"Se ele cru­zar o meu ca­mi­nho, eu vou car­bo­ni­zá-lo."

​No exa­to ins­tan­te em que esse pen­sa­men­to eco­ou, um chi­a­do bai­xo soou no quar­to.

​As mi­nhas pu­pi­las di­la­ta­ram. A po­la­roi­de de Jack, pre­sa no mu­ral de cor­ti­ça, co­me­çou a es­cu­re­cer nas bor­das. O pa­pel fo­to­grá­fi­co en­ru­gou, a ima­gem do sor­ri­so dele dis­tor­ceu-se e, em um mi­lé­si­mo de se­gun­do, as bor­das da foto en­tra­ram em com­bus­tão.

​Uma cha­ma ala­ran­ja­da, pe­que­na mas fu­ri­o­sa, con­su­miu a fo­to­gra­fia em um pis­car de olhos, trans­for­man­do-a em cin­zas ne­gras que flu­tu­a­ram até cair no te­cla­do do meu com­pu­ta­dor.

​Sol­tei um gri­to aba­fa­do, re­cu­an­do aos tro­pe­ços até as mi­nhas cos­tas ba­te­rem con­tra a por­ta do quar­to.

​O mu­ral es­ta­va in­tac­to. As ou­tras fo­tos não fo­ram quei­ma­das. Ape­nas a dele.

​Eu olhei para as mi­nhas mãos, que ain­da tre­mi­am. Não ha­via fós­fo­ros, não ha­via is­quei­ro. Ha­via ape­nas uma ga­ro­ta de vin­te anos, no meio da ma­dru­ga­da, per­ce­ben­do com ab­so­lu­to ter­ror que os mons­tros não es­ta­vam mais res­tri­tos aos seus so­nhos. Eles es­ta­vam san­gran­do para a re­a­li­da­de, usan­do as emo­ções que­bra­das do meu luto hu­ma­no como ga­ti­lho.

​Pe­guei o ce­lu­lar no bol­so do ca­sa­co que es­ta­va ati­ra­do na cama, as mãos es­cor­re­ga­di­as de suor frio. As mi­nhas op­ções eram es­cas­sas: li­gar para o Paul e ser in­ter­na­da com­pul­so­ri­a­men­te em uma ala psi­qui­á­tri­ca an­tes do ama­nhe­cer, ou li­gar para a úni­ca pes­soa que fa­la­va so­bre ener­gia e au­ras sem rir.

​Dis­quei o nú­me­ro da Sara.

​Um, dois, três to­ques lon­gos no si­lên­cio do meu quar­to. A cha­ma do pa­pel quei­ma­do ain­da dei­xa­va um chei­ro de en­xo­fre no ar.

​— Li­lih? — A voz da Sara soou ás­pe­ra pelo sono, mas aler­ta. Ela co­nhe­cia a mi­nha de­pres­são, sa­bia que eu não li­ga­ria de ma­dru­ga­da a me­nos que es­ti­ves­se à bei­ra do pre­ci­pí­cio.

​— Sara... eu não con­si­go mais. — A mi­nha voz de­sa­bou, as de­fe­sas fi­nal­men­te ce­den­do. Dei­xei o meu cor­po es­cor­re­gar pela por­ta até sen­tar no chão abra­çan­do os jo­e­lhos. — Pre­ci­so da sua aju­da. Você sem­pre fa­lou da­que­las coi­sas. So­bre ener­gi­as in­va­si­vas, so­bre pes­so­as sen­tin­do pre­sen­ças. Eu achei que você fos­se ape­nas a eso­té­ri­ca do gru­po, mas...

​— Res­pi­ra, Li­li­an. O que acon­te­ceu? — A voz dela mu­dou. Todo o res­quí­cio de sono su­miu. Ha­via uma se­ri­e­da­de afi­a­da, qua­se mi­li­tar, na for­ma como ela fa­lou.

​— Eu não es­tou ten­do ape­nas pe­sa­de­los. Eu es­tou per­den­do tem­po, Sara. Tre­ze ho­ras su­mi­ram hoje. E algo aca­bou de pe­gar fogo no meu quar­to só por­que eu... só por­que eu pen­sei nis­so. — Eu so­lu­cei, o pâ­ni­co es­tran­gu­lan­do as mi­nhas pa­la­vras. — Tem al­gu­ma coi­sa na mi­nha ca­be­ça. E ela me odeia.

​O si­lên­cio que se se­guiu do ou­tro lado da li­nha foi o mais lon­go da mi­nha vida. Eu es­pe­rei que ela me man­das­se pro­cu­rar um mé­di­co. Es­pe­rei ou­vir o som da ci­ên­cia hu­ma­na ten­tan­do jus­ti­fi­car o im­pos­sí­vel.

​— Ar­ru­me uma mo­chi­la com al­gu­mas rou­pas, Li­li­an.

​— O quê? — pis­quei, sur­pre­sa com a ob­je­ti­vi­da­de do tom dela.

​— Não fale com o seu pai, não dei­xe ne­nhum bi­lhe­te. Vis­ta algo quen­te e saia de casa ago­ra. Vai cho­ver da­qui a pou­co. — Sara or­de­nou, e não era um con­se­lho de ami­ga; era uma or­dem. — O que está na sua ca­be­ça, Li­li­an, não é es­qui­zo­fre­nia. É uma so­bre­vi­ven­te. E se o que ha­bi­ta em você é po­de­ro­so o su­fi­ci­en­te para ma­ni­fes­tar o fogo fí­si­co no pla­no ma­te­ri­al sem ca­ta­li­sa­dor... nós te­mos um pro­ble­ma gi­gan­tes­co.

​— Nós? Sara, do que você está fa­lan­do? Para onde eu vou?

​— Ve­nha para o meu apar­ta­men­to. Eu vou cha­mar al­guém que sabe exa­ta­men­te como li­dar com as ci­ca­tri­zes da Fen­da. Al­guém que li­de­ra o que so­brou de nós.

​— O que so­brou de quem?! — ber­rei, le­van­tan­do-me, a exaus­tão abrin­do ca­mi­nho para o de­ses­pe­ro de quem não sabe se está en­tran­do em um hos­pí­cio ou em um aba­te­dou­ro.

​Sa­ra sus­pi­rou pe­sa­da­men­te do ou­tro lado da li­nha. A voz dela car­re­ga­va sé­cu­los de can­sa­ço.

— Ape­nas ve­nha, Li­li­an. E pelo amor de Deus, se você sen­tir o ar es­quen­tar, con­cen­tre-se na sua pró­pria res­pi­ra­ção, por­que se o Her­dei­ro sen­tir o gos­to da sua ma­gia pe­las ruas... ele não será o úni­co a ir atrás de você.

​Ela des­li­gou.

​Eu olhei para o ce­lu­lar, e de­pois para as cin­zas es­cu­re­cen­do a mi­nha mesa. O apar­ta­men­to pa­re­cia mais si­len­ci­o­so do que nun­ca, mas ago­ra, não era um si­lên­cio va­zio. Era o si­lên­cio de quem pren­de a res­pi­ra­ção an­tes da guer­ra.

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