CAPÍTULO 1
“Todo colapso existencial começa com uma mentira pequena:
‘Depois que eu chegar lá, eu vou me sentir bem.”
Ninguém nos avisa que ‘lá’ não existe.
E que o único ponto de partida real é o lugar exato em que você não aguenta
mais ser quem tem fingido ser.”
O ECO DO VAZIO
O céu de Ghent naquela tarde de domingo era um cinza sufocante, como se o próprio
inverno estivesse de luto.
As ruas, antes cheias de risadas e bicicletas apressadas, estavam estranhamente vazias.
Os cafés estavam fechando mais cedo, suas luzes eram apagadas antes do anoitecer.
Janelas de apartamentos permaneciam acesas a noite toda, como olhos que se recusavam
a dormir.
Hugo, encostado no parapeito gelado da ponte St. Michael, sentia o peso daquele silêncio
anormal. Ele sabia, mesmo sem números para provar, que algo estava errado com a
cidade, tão errado quanto o vazio que o corroía por dentro.
A pedra áspera atravessava o casaco de lã. Ele gostava da sua firmeza externa
contrastando com o seu caos interno.
No bolso seu diploma dobrado em quatro. Não por zelo, mas porque não suportava vê-lo
inteiro. Ciências Econômicas. Menção honrosa. Estágio garantido num banco em Bruxelas.
Todos os “parabéns” do mundo e nenhum “você está feliz?”.
Na água os reflexos das casas tremiam, quebrados pela correnteza.
Jung lhe vinha à mente. Projeção - “O que vemos fora é o que transborda dentro”.
O problema é que, dentro dele, nada transbordava.
Era o contrário, tudo secava. Ideias, entusiasmo até o sono.
Um vazio espesso vinha tomando conta, aquele tipo de angústia que corta a alma sobre a
qual os existencialistas tanto escreveram e ele sentia na pele sem saber nomear.
O celular vibrou.
Na tela uma notificação da universidade, dois e-mails idênticos “Oportunidade imperdível de
trainee” e uma mensagem da mãe.
“Filho, falei com o tio Alberto.
Ele pode te indicar para um trainee na consultoria dele.
Não perca tempo. O mundo não espera.”
“O mundo não espera.”
Ele leu, releu, como se as palavras pudessem mudar de forma se insistisse. Não mudaram.
Bloqueou a tela e enfiou o telefone no bolso mais fundo, como se a profundidade do tecido
pudesse atrasar o futuro.
— Você está tentando ouvir o que os peixes dizem ou esperando que a água te dê as
respostas que a universidade não te deu?
A voz veio leve, mas com uma firmeza subterrânea. Ele não precisou se virar para saber.
Maya.
Ela se aproximou com aquele andar que parecia flutuar acima do chão. Não era distração,
era desencaixe. Como se estivesse sempre com um pé fora do mundo material. O vento
puxava mechas soltas do cabelo preso de qualquer jeito. Ela ignorava, como ignorava
quase tudo que fosse puramente estético.
Com um sobretudo azul-escuro, quase preto, um cachecol com cores demais para o inverno
belga, mas que nela funcionavam. Amarelo queimado, verde musgo, um fio vermelho
perdido entre os outros.
Debaixo do braço, um caderno grosso, sujo de tinta, papéis extras escapando, como se o
caderno não desse conta do que ela colocava ali.
— A água é honesta, respondeu Hugo sem desviar o olhar.
— Ela flui, não tem crise de identidade, não faz planilha de prós e contras para decidir para
onde vai.
Maya sorriu de lado, metade ironia, metade carinho.
— Não subestime a água, Hugo. Ela só parece simples porque não tenta ser outra coisa.
Inclinou-se um pouco.
— Ela aceita o leito que tem, mas se você olhar direito, ela está sempre cavando caminhos.
— Devagar, silenciosamente, muda até a pedra.
Hugo ficou alguns segundos olhando o canal antes de soltar.
— Eu estava analisando os dados da universidade agora a pouco. A taxa de abandono
explodiu este ano. Depressão, burnout... O noticiário fala em “crise de saúde mental”,
“epidemia de burnout”, mas ninguém diz a palavra que todo mundo pensa.
Maya fechou os olhos por um instante, como se escutasse outra camada do ar.
— Não são só números, disse.
— Dá pra sentir. A cidade está... pesada. Como se o ar estivesse cheio de desespero que
não é só nosso.
Ela ocupou o lugar ao lado dele, cotovelos no parapeito. O frio da pedra subiu pelos braços
dos dois. O sino da catedral soou ao longe, um bonde rangeu na esquina.
— A formatura acabou, os aplausos acabaram... ela disse, com a voz baixa.
— E agora? Quem é você quando o barulho some?
A pergunta acertou onde doía.
Hugo engoliu em seco.
— Eu sou...começou mas a frase morreu. Tentou pela lógica.
— Cara, olha pra mim... Eu fiz tudo que mandaram. Tirei nota máxima, fiz intercâmbio,
engoli sapo. Virei o 'candidato ideal' perfeito pra minha família exibir por aí. Só que eu
cheguei na linha de chegada e... não tem nada aqui.
— Eu tô completamente oco por dentro.
Maya o encarou como se enxergasse as camadas por baixo.
— Isso é o que você faz, corrigiu, com precisão e calma.
— Eu perguntei quem você é?
Ele odiava quando ela fazia isso, pegava uma frase e empurrava até o osso.
— Eu não sei, admitiu finalmente.
— E isso me deixa bem mais preocupado do que deveria.
A palavra saiu áspera de sua voz.
— Não sei quem eu sou sem meta, sem prova, sem direção.
Minha cabeça virou um labirinto de “deverias”. Eu deveria estar animado. Deveria estar
aplicando para vagas, estudando para entrevistas. Mas o que eu sinto é...
A mente, treinada em jargões, travou.
— Vazio, completou Maya.
Não como quem adivinha, como quem reconhece.
Hugo apoiou a testa no dorso da mão, olhos fechados por um segundo.
— Eu tenho tudo pra não reclamar, continuou.
— Meus pais se mataram de trabalhar, não me faltou nada. Eu fiz o que tinha que fazer.
— E, mesmo assim, sinto como se estivesse atrasado para algo que nem sei o que é, riu
sem humor.
— É como se o trem da minha vida tivesse passado e ninguém me avisou qual era a minha
estação.
Maya acompanhou com o olhar uma folha girando num redemoinho minúsculo no canal.
— A psicologia chama isso de vazio existencial. A espiritualidade de iniciação. Ontem, num
documentário, o cara chamou de “Saudade do Ser”. Deu um sorriso.
— O nome muda. O buraco é o mesmo, completou Maya.
— “Saudade do Ser” , repetiu Hugo.
— Título perfeito de filme cult que ninguém entende e todo mundo finge que entendeu.
— Exato, respondeu ela.
— E, mesmo assim, você está vivendo dentro dele.
O sino distante marcou meio dia. O som se alojou entre o peito e o estômago de Hugo,
lembrando-o de que o tempo escorria sem gestão.
— Eu sei estruturar qualquer coisa, ele disse.
— Projeto, orçamento, cronograma. Se você me der um problema, eu monto um plano. Mas
quando tento aplicar isso à minha vida...
Abriu a mão, como quem solta algo, é como se os dados estivessem corrompidos.
— Antes o sucesso era claro: entrar, passar, terminar. Agora tudo é arbitrário.
Maya esperou as palavras assentarem.
— Talvez o problema não seja o plano, arriscou.
— Talvez seja o “para quê”.
— Se você vier com papo de propósito, eu pulo, cortou ele.
— “Encontre seu porquê”, “viva sua missão”... isso só me deixa mais ansioso.
— Parece o trem que todo mundo pegou, menos eu.
— E se não for um trem?, retrucou Maia.
— E se for um labirinto? Não pra te prender, mas pra te obrigar a andar. Talvez o que te
angustia não seja “não ter encontrado o propósito” e sim suspeitar que ele não é um ponto
fixo. É o caminho.
Ele ficou em silêncio. Uma parte dele queria muito que ela estivesse errada, só pra poder
culpar o mundo.
Ela afrouxou o cachecol, respirou fundo o ar frio.
— Deixa eu te fazer uma pergunta mais prática. Se o dinheiro e aprovação estivessem
garantidos... com o que você usaria essa mente obsessivamente analítica?
— O que você organizaria, só porque isso te dá sensação de sentido?
— Sinceramente? Minha vontade era dormir por um ano inteiro. Mas... sei lá. Fico
lembrando da galera da faculdade. Gente brilhante travando porque a vida tá um caos,
aceitando vaga que está ferrando a própria cabeça.
— Eu odeio ver as pessoas desperdiçando a vida à toa. Se eu pudesse, acho que só
ajudaria as pessoas a não surtarem e a colocarem as coisas no lugar., pensou Hugo
— Eu odeio desperdício, murmurou quase para si.
— De potencial. De tempo. De talento. Talvez... eu organizaria a vida das pessoas para
elas não se perderem de si mesmas.
Maya assentiu com um movimento mínimo, mas intenso.
— Arquitetura da Clareza, nomeou Maya.
— É isso que você faz. Não só com Excel.
— Você gosta de arrumar a bagunça dos outros, Hugo. Você não é só um cara das
planilhas, você ajuda a dar clareza. O foda é que a faculdade fez lavagem cerebral pra você
achar que esse seu talento só serve pra dar lucro pra banco, e não pra ajudar de verdade.
— Ótimo, ele suspirou. Agora, além de ansioso, eu sou frase de vídeo motivacional.
Ela riu, e a risada aliviou um pouco a pressão no peito dele.
— Nomear é só o primeiro passo, disse.
— Depois vem o trabalho.
O vento engrossou. Um papel de bala dançou entre os dois e caiu na água.
— Vem, ela disse, antes que a gente congele, preciso te mostrar uma coisa.
— Não tô no clima de tour turístico.
— Não é um tour turista. É pra quem está perdendo o chão.
Ele olhou uma última vez o reflexo tremido das casas na ponte e a seguiu.
***
Desceram a ponte e andaram pelas arruelas observando grafites pela metade, bicicletas
largadas, caixas encostadas nas portas. O cheiro de waffle recém feito é misturado ao de
umidade da cidade.
— Você não reparou?, Maya perguntou caminhando.
— Ghent anda mais vazia à noite. Cafés fechando cedo, gente que vivia na rua sumindo
depois do pôr do sol.
— É inverno, ele insistiu.
— Não é só isso, rebateu.
— Tem algo pesado no ar. Como se muita gente estivesse no limite... e a cidade não
soubesse segurar.
Ela mudou de assunto sem mudar de assunto.
— Você lembra da primeira vez que ouviu falar de Consciência? Não estar só acordado,
mas ser o espaço que percebe tudo?
— Talvez num vídeo de meditação que eu larguei no minuto dois e meio, respondeu. O cara
começou a falar de “observador” e minha mente divagou e fui ver outra coisa.
— Eu ouvi isso do meu pai, disse ela.
— Ele colocava documentários de física quântica e espiritualidade. Eu queria ver desenho.
Mas uma coisa ficou, a ideia da consciência como o céu e o cérebro como o avião. A gente
se acha o avião e se esquece do céu.
Ela o encarou.
— Você está preso na cabine, Hugo. Controlando o tráfego de pensamento, convencido de
que, se parar, tudo cai. Ninguém te ensinou que você é o céu.
Viraram a esquina. Um letreiro discreto, letras à mão numa placa de madeira: SANTUÁRIO.
— Que cafona!, comentou Hugo.
— Vai ter incenso, almofadas e alguém dizendo “gratidão” a cada frase. Maya riu.
— Vai ter silêncio, ela corrigiu. E um lugar pra tua mente parar um pouco.
Entraram.