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Capítulo 1

O ECO DO VAZIO

Engenharia do Ser · por /douglas ayres

CA­PÍ­TU­LO 1

“Todo co­lap­so exis­ten­ci­al co­me­ça com uma men­ti­ra pe­que­na:

‘De­pois que eu che­gar lá, eu vou me sen­tir bem.”

Nin­guém nos avi­sa que ‘lá’ não exis­te.

E que o úni­co pon­to de par­ti­da real é o lu­gar exa­to em que você não aguen­ta

mais ser quem tem fin­gi­do ser.”

O ECO DO VA­ZIO

O céu de Ghent na­que­la tar­de de do­min­go era um cin­za su­fo­can­te, como se o pró­prio

in­ver­no es­ti­ves­se de luto.

As ruas, an­tes chei­as de ri­sa­das e bi­ci­cle­tas apres­sa­das, es­ta­vam es­tra­nha­men­te va­zi­as.

Os ca­fés es­ta­vam fe­chan­do mais cedo, suas lu­zes eram apa­ga­das an­tes do anoi­te­cer.

Ja­ne­las de apar­ta­men­tos per­ma­ne­ci­am ace­sas a noi­te toda, como olhos que se re­cu­sa­vam

a dor­mir.

Hugo, en­cos­ta­do no pa­ra­pei­to ge­la­do da pon­te St. Mi­cha­el, sen­tia o peso da­que­le si­lên­cio

anor­mal. Ele sa­bia, mes­mo sem nú­me­ros para pro­var, que algo es­ta­va er­ra­do com a

ci­da­de, tão er­ra­do quan­to o va­zio que o cor­ro­ía por den­tro.

A pe­dra ás­pe­ra atra­ves­sa­va o ca­sa­co de lã. Ele gos­ta­va da sua fir­me­za ex­ter­na

con­tras­tan­do com o seu caos in­ter­no.

No bol­so seu di­plo­ma do­bra­do em qua­tro. Não por zelo, mas por­que não su­por­ta­va vê-lo

in­tei­ro. Ci­ên­ci­as Eco­nô­mi­cas. Men­ção hon­ro­sa. Es­tá­gio ga­ran­ti­do num ban­co em Bru­xe­las.

To­dos os “pa­ra­béns” do mun­do e ne­nhum “você está fe­liz?”.

Na água os re­fle­xos das ca­sas tre­mi­am, que­bra­dos pela cor­ren­te­za.

Jung lhe vi­nha à men­te. Pro­je­ção - “O que ve­mos fora é o que trans­bor­da den­tro”.

O pro­ble­ma é que, den­tro dele, nada trans­bor­da­va.

Era o con­trá­rio, tudo se­ca­va. Idei­as, en­tu­si­as­mo até o sono.

Um va­zio es­pes­so vi­nha to­man­do con­ta, aque­le tipo de an­gús­tia que cor­ta a alma so­bre a

qual os exis­ten­ci­a­lis­tas tan­to es­cre­ve­ram e ele sen­tia na pele sem sa­ber no­me­ar.

O ce­lu­lar vi­brou.

Na tela uma no­ti­fi­ca­ção da uni­ver­si­da­de, dois e-mails idên­ti­cos “Opor­tu­ni­da­de im­per­dí­vel de

trai­nee” e uma men­sa­gem da mãe.

“Fi­lho, fa­lei com o tio Al­ber­to.

Ele pode te in­di­car para um trai­nee na con­sul­to­ria dele.

Não per­ca tem­po. O mun­do não es­pe­ra.”

“O mun­do não es­pe­ra.”

Ele leu, re­leu, como se as pa­la­vras pu­des­sem mu­dar de for­ma se in­sis­tis­se. Não mu­da­ram.

Blo­que­ou a tela e en­fi­ou o te­le­fo­ne no bol­so mais fun­do, como se a pro­fun­di­da­de do te­ci­do

pu­des­se atra­sar o fu­tu­ro.

— Você está ten­tan­do ou­vir o que os pei­xes di­zem ou es­pe­ran­do que a água te dê as

res­pos­tas que a uni­ver­si­da­de não te deu?

A voz veio leve, mas com uma fir­me­za sub­ter­râ­nea. Ele não pre­ci­sou se vi­rar para sa­ber.

Maya.

Ela se apro­xi­mou com aque­le an­dar que pa­re­cia flu­tu­ar aci­ma do chão. Não era dis­tra­ção,

era de­sen­cai­xe. Como se es­ti­ves­se sem­pre com um pé fora do mun­do ma­te­ri­al. O ven­to

pu­xa­va me­chas sol­tas do ca­be­lo pre­so de qual­quer jei­to. Ela ig­no­ra­va, como ig­no­ra­va

qua­se tudo que fos­se pu­ra­men­te es­té­ti­co.

Com um so­bre­tu­do azul-es­cu­ro, qua­se pre­to, um ca­che­col com co­res de­mais para o in­ver­no

bel­ga, mas que nela fun­ci­o­na­vam. Ama­re­lo quei­ma­do, ver­de mus­go, um fio ver­me­lho

per­di­do en­tre os ou­tros.

De­bai­xo do bra­ço, um ca­der­no gros­so, sujo de tin­ta, pa­péis ex­tras es­ca­pan­do, como se o

ca­der­no não des­se con­ta do que ela co­lo­ca­va ali.

— A água é ho­nes­ta, res­pon­deu Hugo sem des­vi­ar o olhar.

— Ela flui, não tem cri­se de iden­ti­da­de, não faz pla­ni­lha de prós e con­tras para de­ci­dir para

onde vai.

Maya sor­riu de lado, me­ta­de iro­nia, me­ta­de ca­ri­nho.

— Não su­bes­ti­me a água, Hugo. Ela só pa­re­ce sim­ples por­que não ten­ta ser ou­tra coi­sa.

In­cli­nou-se um pou­co.

— Ela acei­ta o lei­to que tem, mas se você olhar di­rei­to, ela está sem­pre ca­van­do ca­mi­nhos.

— De­va­gar, si­len­ci­o­sa­men­te, muda até a pe­dra.

Hugo fi­cou al­guns se­gun­dos olhan­do o ca­nal an­tes de sol­tar.

— Eu es­ta­va ana­li­san­do os da­dos da uni­ver­si­da­de ago­ra a pou­co. A taxa de aban­do­no

ex­plo­diu este ano. De­pres­são, bur­nout... O no­ti­ci­á­rio fala em “cri­se de sa­ú­de men­tal”,

“epi­de­mia de bur­nout”, mas nin­guém diz a pa­la­vra que todo mun­do pen­sa.

Maya fe­chou os olhos por um ins­tan­te, como se es­cu­tas­se ou­tra ca­ma­da do ar.

— Não são só nú­me­ros, dis­se.

— Dá pra sen­tir. A ci­da­de está... pe­sa­da. Como se o ar es­ti­ves­se cheio de de­ses­pe­ro que

não é só nos­so.

Ela ocu­pou o lu­gar ao lado dele, co­to­ve­los no pa­ra­pei­to. O frio da pe­dra su­biu pe­los bra­ços

dos dois. O sino da ca­te­dral soou ao lon­ge, um bon­de ran­geu na es­qui­na.

— A for­ma­tu­ra aca­bou, os aplau­sos aca­ba­ram... ela dis­se, com a voz bai­xa.

— E ago­ra? Quem é você quan­do o ba­ru­lho some?

A per­gun­ta acer­tou onde doía.

Hugo en­go­liu em seco.

— Eu sou...co­me­çou mas a fra­se mor­reu. Ten­tou pela ló­gi­ca.

— Cara, olha pra mim... Eu fiz tudo que man­da­ram. Ti­rei nota má­xi­ma, fiz in­ter­câm­bio,

en­go­li sapo. Vi­rei o 'can­di­da­to ide­al' per­fei­to pra mi­nha fa­mí­lia exi­bir por aí. Só que eu

che­guei na li­nha de che­ga­da e... não tem nada aqui.

— Eu tô com­ple­ta­men­te oco por den­tro.

Maya o en­ca­rou como se en­xer­gas­se as ca­ma­das por bai­xo.

— Isso é o que você faz, cor­ri­giu, com pre­ci­são e cal­ma.

— Eu per­gun­tei quem você é?

Ele odi­a­va quan­do ela fa­zia isso, pe­ga­va uma fra­se e em­pur­ra­va até o osso.

— Eu não sei, ad­mi­tiu fi­nal­men­te.

— E isso me dei­xa bem mais pre­o­cu­pa­do do que de­ve­ria.

A pa­la­vra saiu ás­pe­ra de sua voz.

— Não sei quem eu sou sem meta, sem pro­va, sem di­re­ção.

Mi­nha ca­be­ça vi­rou um la­bi­rin­to de “de­ve­ri­as”. Eu de­ve­ria es­tar ani­ma­do. De­ve­ria es­tar

apli­can­do para va­gas, es­tu­dan­do para en­tre­vis­tas. Mas o que eu sin­to é...

A men­te, trei­na­da em jar­gões, tra­vou.

— Va­zio, com­ple­tou Maya.

Não como quem adi­vi­nha, como quem re­co­nhe­ce.

Hugo apoi­ou a tes­ta no dor­so da mão, olhos fe­cha­dos por um se­gun­do.

— Eu te­nho tudo pra não re­cla­mar, con­ti­nu­ou.

— Meus pais se ma­ta­ram de tra­ba­lhar, não me fal­tou nada. Eu fiz o que ti­nha que fa­zer.

— E, mes­mo as­sim, sin­to como se es­ti­ves­se atra­sa­do para algo que nem sei o que é, riu

sem hu­mor.

— É como se o trem da mi­nha vida ti­ves­se pas­sa­do e nin­guém me avi­sou qual era a mi­nha

es­ta­ção.

Maya acom­pa­nhou com o olhar uma fo­lha gi­ran­do num re­de­mo­i­nho mi­nús­cu­lo no ca­nal.

— A psi­co­lo­gia cha­ma isso de va­zio exis­ten­ci­al. A es­pi­ri­tu­a­li­da­de de ini­ci­a­ção. On­tem, num

do­cu­men­tá­rio, o cara cha­mou de “Sau­da­de do Ser”. Deu um sor­ri­so.

— O nome muda. O bu­ra­co é o mes­mo, com­ple­tou Maya.

— “Sau­da­de do Ser” , re­pe­tiu Hugo.

— Tí­tu­lo per­fei­to de fil­me cult que nin­guém en­ten­de e todo mun­do fin­ge que en­ten­deu.

— Exa­to, res­pon­deu ela.

— E, mes­mo as­sim, você está vi­ven­do den­tro dele.

O sino dis­tan­te mar­cou meio dia. O som se alo­jou en­tre o pei­to e o es­tô­ma­go de Hugo,

lem­bran­do-o de que o tem­po es­cor­ria sem ges­tão.

— Eu sei es­tru­tu­rar qual­quer coi­sa, ele dis­se.

— Pro­je­to, or­ça­men­to, cro­no­gra­ma. Se você me der um pro­ble­ma, eu mon­to um pla­no. Mas

quan­do ten­to apli­car isso à mi­nha vida...

Abriu a mão, como quem sol­ta algo, é como se os da­dos es­ti­ves­sem cor­rom­pi­dos.

— An­tes o su­ces­so era cla­ro: en­trar, pas­sar, ter­mi­nar. Ago­ra tudo é ar­bi­trá­rio.

Maya es­pe­rou as pa­la­vras as­sen­ta­rem.

— Tal­vez o pro­ble­ma não seja o pla­no, ar­ris­cou.

— Tal­vez seja o “para quê”.

— Se você vier com papo de pro­pó­si­to, eu pulo, cor­tou ele.

— “En­con­tre seu por­quê”, “viva sua mis­são”... isso só me dei­xa mais an­si­o­so.

— Pa­re­ce o trem que todo mun­do pe­gou, me­nos eu.

— E se não for um trem?, re­tru­cou Maia.

— E se for um la­bi­rin­to? Não pra te pren­der, mas pra te obri­gar a an­dar. Tal­vez o que te

an­gus­tia não seja “não ter en­con­tra­do o pro­pó­si­to” e sim sus­pei­tar que ele não é um pon­to

fixo. É o ca­mi­nho.

Ele fi­cou em si­lên­cio. Uma par­te dele que­ria mui­to que ela es­ti­ves­se er­ra­da, só pra po­der

cul­par o mun­do.

Ela afrou­xou o ca­che­col, res­pi­rou fun­do o ar frio.

— Dei­xa eu te fa­zer uma per­gun­ta mais prá­ti­ca. Se o di­nhei­ro e apro­va­ção es­ti­ves­sem

ga­ran­ti­dos... com o que você usa­ria essa men­te ob­ses­si­va­men­te ana­lí­ti­ca?

— O que você or­ga­ni­za­ria, só por­que isso te dá sen­sa­ção de sen­ti­do?

— Sin­ce­ra­men­te? Mi­nha von­ta­de era dor­mir por um ano in­tei­ro. Mas... sei lá. Fico

lem­bran­do da ga­le­ra da fa­cul­da­de. Gen­te bri­lhan­te tra­van­do por­que a vida tá um caos,

acei­tan­do vaga que está fer­ran­do a pró­pria ca­be­ça.

— Eu odeio ver as pes­so­as des­per­di­çan­do a vida à toa. Se eu pu­des­se, acho que só

aju­da­ria as pes­so­as a não sur­ta­rem e a co­lo­ca­rem as coi­sas no lu­gar., pen­sou Hugo

— Eu odeio des­per­dí­cio, mur­mu­rou qua­se para si.

— De po­ten­ci­al. De tem­po. De ta­len­to. Tal­vez... eu or­ga­ni­za­ria a vida das pes­so­as para

elas não se per­de­rem de si mes­mas.

Maya as­sen­tiu com um mo­vi­men­to mí­ni­mo, mas in­ten­so.

— Ar­qui­te­tu­ra da Cla­re­za, no­me­ou Maya.

— É isso que você faz. Não só com Ex­cel.

— Você gos­ta de ar­ru­mar a ba­gun­ça dos ou­tros, Hugo. Você não é só um cara das

pla­ni­lhas, você aju­da a dar cla­re­za. O foda é que a fa­cul­da­de fez la­va­gem ce­re­bral pra você

achar que esse seu ta­len­to só ser­ve pra dar lu­cro pra ban­co, e não pra aju­dar de ver­da­de.

— Óti­mo, ele sus­pi­rou. Ago­ra, além de an­si­o­so, eu sou fra­se de ví­deo mo­ti­va­ci­o­nal.

Ela riu, e a ri­sa­da ali­vi­ou um pou­co a pres­são no pei­to dele.

— No­me­ar é só o pri­mei­ro pas­so, dis­se.

— De­pois vem o tra­ba­lho.

O ven­to en­gros­sou. Um pa­pel de bala dan­çou en­tre os dois e caiu na água.

— Vem, ela dis­se, an­tes que a gen­te con­ge­le, pre­ci­so te mos­trar uma coi­sa.

— Não tô no cli­ma de tour tu­rís­ti­co.

— Não é um tour tu­ris­ta. É pra quem está per­den­do o chão.

Ele olhou uma úl­ti­ma vez o re­fle­xo tre­mi­do das ca­sas na pon­te e a se­guiu.

***

Des­ce­ram a pon­te e an­da­ram pe­las ar­ru­e­las ob­ser­van­do gra­fi­tes pela me­ta­de, bi­ci­cle­tas

lar­ga­das, cai­xas en­cos­ta­das nas por­tas. O chei­ro de waf­fle re­cém fei­to é mis­tu­ra­do ao de

umi­da­de da ci­da­de.

— Você não re­pa­rou?, Maya per­gun­tou ca­mi­nhan­do.

— Ghent anda mais va­zia à noi­te. Ca­fés fe­chan­do cedo, gen­te que vi­via na rua su­min­do

de­pois do pôr do sol.

— É in­ver­no, ele in­sis­tiu.

— Não é só isso, re­ba­teu.

— Tem algo pe­sa­do no ar. Como se mui­ta gen­te es­ti­ves­se no li­mi­te... e a ci­da­de não

sou­bes­se se­gu­rar.

Ela mu­dou de as­sun­to sem mu­dar de as­sun­to.

— Você lem­bra da pri­mei­ra vez que ou­viu fa­lar de Cons­ci­ên­cia? Não es­tar só acor­da­do,

mas ser o es­pa­ço que per­ce­be tudo?

— Tal­vez num ví­deo de me­di­ta­ção que eu lar­guei no mi­nu­to dois e meio, res­pon­deu. O cara

co­me­çou a fa­lar de “ob­ser­va­dor” e mi­nha men­te di­va­gou e fui ver ou­tra coi­sa.

— Eu ouvi isso do meu pai, dis­se ela.

— Ele co­lo­ca­va do­cu­men­tá­ri­os de fí­si­ca quân­ti­ca e es­pi­ri­tu­a­li­da­de. Eu que­ria ver de­se­nho.

Mas uma coi­sa fi­cou, a ideia da cons­ci­ên­cia como o céu e o cé­re­bro como o avi­ão. A gen­te

se acha o avi­ão e se es­que­ce do céu.

Ela o en­ca­rou.

— Você está pre­so na ca­bi­ne, Hugo. Con­tro­lan­do o trá­fe­go de pen­sa­men­to, con­ven­ci­do de

que, se pa­rar, tudo cai. Nin­guém te en­si­nou que você é o céu.

Vi­ra­ram a es­qui­na. Um le­trei­ro dis­cre­to, le­tras à mão numa pla­ca de ma­dei­ra: SAN­TU­Á­RIO.

— Que ca­fo­na!, co­men­tou Hugo.

— Vai ter in­cen­so, al­mo­fa­das e al­guém di­zen­do “gra­ti­dão” a cada fra­se. Maya riu.

— Vai ter si­lên­cio, ela cor­ri­giu. E um lu­gar pra tua men­te pa­rar um pou­co.

En­tra­ram.

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