#01 : AQUILO QUE NINGUÉM TE CONTA
uma vez ou outra, o vento balançava os galhos das árvores e os fios de energia tão fortes que estava com receio de faltar a luz, a tempestade que caía não era misericordiosa, chuvas de verão nunca são. Com janelas e portas fechadas e com meu cão de grande porte deitado no grande tapete felpudo da sala de estar eu estava protegida. Eram 3:30 da madrugada e eu não conseguia dormir. Sentia que estava sendo punida por meu cérebro, forçada ficar acordada escutando a tempestade e outra madrugada de insônia. Estava deitada confortavelmente em meu sofá enrolada em meu cobertor e usando pares de meias diferentes, o cheiro de terra molhada era uma espécie de calmante enquanto vídeos e vídeos passavam pela minha timeline no tik tok. O aplicativo era um ótimo meio de distração, milhares de vídeos em apenas trinta segundos. Dado à isso, um deles em especial; havia uma trend em alta no app uma espécie de vídeo de terror no qual sempre dizia:
"Se você ver uma pessoa idêntica a você, corra."
Mas pelo contrário do que imaginei, os vídeos não eram nem um pouco assustadores, no máximo estranhos. Afinal, como poderia existir uma pessoa idêntica a mim?!
Meu cão levantou o pescoço me observando sentada no sofá quando o chamei para se deitar comigo, mas ele se negou. Estranhei, mas deixei de lado. Em seguida, o animal se levantou e andou até o início do corredor que conectava a sala de estar e a cozinha, ficando parado encarando o breu.
— Rex!
O chamei em vão.
Suspirei fundo deixando o celular e cobertores de lado, me levantando para ver o que estava incomodando. Olhei para o mesmo breu que ele encarava sem notar nada de estranho, andei até o interruptor e acendi a luz do corredor o mostrando.
— Viu? Não tem nada! — Apaguei e acendi a luz várias vezes pra ele confirmar.
Em um dos momentos em que apaguei a luz, Rex rosnou, arrepiando os pêlos de suas costas. Franzi o cenho e liguei a luz rapidamente. O cachorro deu dois passos vagarosos para trás, ainda encarando o lugar fixamente. Apaguei a luz, forçando minha visão, conseguindo ver de relance um vulto, me assustando e correndo em direção à sala de estar. Em um reflexo infantil, eu me cobri com meu cobertor e peguei meu celular digitando o número do celular de minha mãe pra pedir ajuda.
Ela não estava em casa naquela noite, ela estava em um encontro com o namorado..
— Atende, atende. — Sussurrei segurando o celular com força contra minha orelha.
"O número que você ligou não existe"
A voz robótica me alertou.
Franzi o cenho sem entender, o número estava escrito corretamente qual era o problema??
Ouvi Rex andar para fora da sala de estar, provavelmente indo até o corredor; não tentei impedi-lo, estava paralisada de medo. Não sabia se o que via era real, mas era medrosa demais para conferir uma segunda vez. Todavia, sons de passos muito mais pesados que as patas de Rex começaram a se aproximar lentamente de mim. Meu coração estava acelerado, sentia que iria sair pela garganta!
Quando o cobertor começou a ser puxado lentamente de cima de mim apertei meus olhos com medo do que veria à minha frente, assim que o cobertor foi ao chão, abri meus olhos devagar me sentando no sofá em um solavanco. Uma pessoa exatamente igual a mim estava parada em minha frente, me olhando com o mesmo terror que havia em meus olhos. Nossas respirações irregulares estavam sincronizadas, nos encaramos profundamente sem desviar o olhar ou piscar.
O meu outro gritou de forma aguda:
"Porquê estás tampando os ouvidos?" E saiu correndo.
Sem entender o que tinha acabado de acontecer me levantei com as pernas bambas e corri até a porta da frente tentando abrir, mas lembrei que estava trancada e a chave estava na cozinha que ficava depois do corredor pra onde a criatura correu. Engoli em seco e peguei o guarda-chuva que estava na sala de estar pra usar como arma, o clima no corredor até a cozinha era denso como se mil olhos estivessem me observando. Na metade do corredor uma luz forte se acendeu em minha direção; era luz de uma lanterna e quem estava apontando em minha direção era minha mãe.
— Mãe? — Indaguei em um sussurro.
Ela desviou o olhar de mim para a criatura que estava ao lado dela.
Arregalei os olhos em pânico.
— Mãe, essa não sou eu, saia daí agora! — Gritei, alertando.
Mas ela não pareceu me ouvir.
— Mãe, temos que sair daqui, ela está aqui desde que você saiu, ela não para de andar pela casa e agir como se fosse eu. — A criatura falou com as mãos trêmulas se agarrando à mulher.
Confusa, tentei me aproximar, mas ambos deram um passo para trás. E foi quando eu entendi..
Eu era uma pessoa idêntica à ela.
Eu era o impostor.
Eu era a criatura.
E o medo é a maior arma usada para desarmar alguém.