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Capítulo 1

Capítulo 1

Warryon - A Herança das Sombras · por L. Barcellos

O ou­to­no de 1996 caiu so­bre Con­nor Wells não como uma tran­si­ção na­tu­ral de es­ta­ções, mas como uma sen­ten­ça. O vi­la­re­jo, um aglo­me­ra­do de cons­tru­ções vi­to­ri­a­nas de ti­jo­los es­cu­ros er­gui­do no in­te­ri­or úmi­do de Dal­lurya, pa­re­cia ter sido en­go­li­do por uma né­voa per­pé­tua. As fo­lhas dos car­va­lhos se­ca­ram an­tes mes­mo de atin­gi­rem a cor do ouro, des­pen­can­do nos pas­sei­os como far­ra­pos cin­zen­tos que se des­man­cha­vam sob as so­las das bo­tas. O sol tor­nou-se um mito, subs­ti­tu­í­do por um dis­co pá­li­do e do­en­te que mal con­se­guia pe­ne­trar a bru­ma. O iso­la­men­to era uma en­ti­da­de fí­si­ca. Não ha­via nada para des­vi­ar os olhos do abis­mo, não ha­via nada para amor­te­cer a so­li­dão. Quan­do o si­lên­cio se ins­ta­la­va em uma casa, ele era ab­so­lu­to. E na re­si­dên­cia da fa­mí­lia Camp­bell, o si­lên­cio ha­via se tor­na­do um mons­tro que de­vo­ra­va o oxi­gê­nio, cô­mo­do por cô­mo­do. Na co­zi­nha, o cen­tro de­li­ca­do do que um dia fora um lar vi­bran­te, Pe­ter Camp­bell es­ta­va sen­ta­do à pe­sa­da mesa de car­va­lho. Ele era um ho­mem que, até pou­cos me­ses atrás, pos­su­ía a vi­ta­li­da­de de um pin­tor apai­xo­na­do pela luz. Ago­ra, aos qua­ren­ta e oito anos, seus ca­be­los cas­ta­nhos acu­mu­la­vam fios pra­te­a­dos nas têm­po­ras numa ve­lo­ci­da­de alar­man­te, e seus olhos, de um ver­de ou­tro­ra quen­te e aco­lhe­dor, pa­re­ci­am ter afun­da­do em ór­bi­tas som­bre­a­das por noi­tes em cla­ro. À sua fren­te, re­pou­sa­va um exem­plar do Con­nor Wells Ch­ro­ni­cle. A data no topo da pá­gi­na es­ta­va duas se­ma­nas atra­sa­da. A man­che­te, do­bra­da e re­do­bra­da tan­tas ve­zes que a tin­ta ba­ra­ta man­cha­va seus ca­los, não es­tam­pa­va mais o ros­to de Anel­li­se. A po­lí­cia lo­cal já ha­via ar­qui­va­do o caso nas ga­ve­tas de "de­sa­pa­re­ci­men­tos sem in­dí­ci­os de cri­me". Para as au­to­ri­da­des, uma mu­lher de qua­ren­ta e pou­cos anos, sem si­nais de ar­rom­ba­men­to ou luta na casa, ti­nha o di­rei­to de sim­ples­men­te ca­mi­nhar para fora de sua pró­pria vida. Mas Pe­ter sa­bia que era men­ti­ra. Ele co­nhe­cia o chei­ro dos ca­be­los loi­ros cor de mel da es­po­sa, a for­ma como os olhos azuis e ex­pres­si­vos dela se ilu­mi­na­vam quan­do ela cui­da­va do jar­dim nos fun­dos da casa, e como eram bri­lhan­tes. Anel­li­se ja­mais aban­do­na­ria os fi­lhos. Ela não era o tipo de mu­lher que fu­gia. Ela era a ân­co­ra. E sem a ân­co­ra, os Camp­bell es­ta­vam à de­ri­va, ba­ten­do con­tra ro­che­dos in­vi­sí­veis. Pe­ter le­vou o ci­gar­ro aos lá­bi­os. O chei­ro de ta­ba­co ba­ra­to, um ví­cio que ele ha­via ad­qui­ri­do re­cen­te­men­te e que Anel­li­se abo­mi­na­ria, en­cheu a co­zi­nha. Ele sol­tou a fu­ma­ça len­ta­men­te, ob­ser­van­do-a es­pi­ra­lar e se mis­tu­rar à pe­num­bra da ma­nhã. O te­le­fo­ne de dis­co, fi­xa­do na pa­re­de ao lado da ge­la­dei­ra, pa­re­cia uma gár­gu­la de plás­ti­co ama­re­lo, mudo e zom­be­tei­ro. Ele pas­sa­ra os pri­mei­ros qua­ren­ta dias es­pe­ran­do que ele to­cas­se. Ago­ra, ele ti­nha medo do que po­de­ria ou­vir se o fi­zes­se. O re­ló­gio de pên­du­lo na sala de es­tar di­ta­va o rit­mo da tor­tu­ra.

Tic. Tac. Tic. Tac.

Foi en­tão que co­me­çou no­va­men­te. Pe­ter fe­chou os olhos e aper­tou a man­dí­bu­la quan­do o zum­bi­do to­mou con­ta de seu ou­vi­do es­quer­do. Não era o som de pres­são alta ou um zum­bi­do co­mum de fa­di­ga. Era uma fre­quên­cia que pa­re­cia nada co­mum, um som que pa­re­cia não vi­a­jar pelo ar, mas vi­brar di­re­ta­men­te den­tro de seus os­sos. Era um mur­mú­rio agu­do, como o som de mil ta­ças de cris­tal sen­do es­fre­ga­das si­mul­ta­ne­a­men­te na bor­da. Ele pres­si­o­nou as pal­mas das mãos con­tra as ore­lhas, os de­dos aper­tan­do o cou­ro ca­be­lu­do. O zum­bi­do tra­zia con­si­go uma pres­são at­mos­fé­ri­ca bi­zar­ra, como se ele es­ti­ves­se mer­gu­lhan­do em águas pro­fun­das. Por uma fra­ção de se­gun­do, a fre­quên­cia pa­re­ceu se des­do­brar em sí­la­bas, em uma lín­gua ma­jes­to­sa e ter­rí­vel que sua men­te se re­cu­sa­va a tra­du­zir. A dor ir­rom­peu atrás de seus olhos, uma luz bran­ca e di­fu­sa que ame­a­ça­va cegá-lo de den­tro para fora.

Ago­ra não, pen­sou Pe­ter, a res­pi­ra­ção sa­in­do en­tre­cor­ta­da.

Ele abriu os olhos abrup­ta­men­te, o pei­to su­bin­do e des­cen­do. O zum­bi­do re­cu­ou, trans­for­man­do-se num chi­a­do es­tá­ti­co, como o de um rá­dio mal sin­to­ni­za­do, até su­mir, dei­xan­do para trás ape­nas a exaus­tão e uma gota de suor frio es­cor­ren­do por sua têm­po­ra. Ele ta­te­ou a xí­ca­ra de chá à sua fren­te. O lí­qui­do es­cu­ro es­ta­va ge­la­do, e uma pe­lí­cu­la opa­ca ha­via se for­ma­do na su­per­fí­cie. Ele be­beu mes­mo as­sim, pre­ci­san­do do amar­gor para an­co­rar-se no mun­do real. Pas­sos pe­sa­dos so­a­ram no cor­re­dor. O ran­gi­do das tá­bu­as de ma­dei­ra an­ti­gas anun­ci­ou a che­ga­da de Ro­bert an­tes mes­mo que a fi­gu­ra do ra­paz pre­en­ches­se o ba­ten­te da por­ta. Aos vin­te anos, Ro­bert Camp­bell pa­re­cia car­re­gar o do­bro de sua ida­de nos om­bros lar­gos. Ele ves­tia uma ja­que­ta je­ans des­bo­ta­da e cal­ças gros­sas de sar­ja, man­cha­das com a gra­xa in­crus­ta­da da ofi­ci­na me­câ­ni­ca no cen­tro do vi­la­re­jo. O ra­paz, que na in­fân­cia pre­ci­sa­va em­pur­rar os ócu­los cons­tan­te­men­te para cima do na­riz en­quan­to lia en­ci­clo­pé­di­as, ha­via aban­do­na­do as len­tes e os li­vros. O olhar azul e prag­má­ti­co de Ro­bert ha­via en­du­re­ci­do, cris­ta­li­za­do pela ne­ces­si­da­de bru­tal de man­ter as fun­da­ções da casa em pé quan­do o pai des­mo­ro­nou. Ro­bert pa­rou na por­ta, se­gu­ran­do um en­ve­lo­pe par­do nas mãos. A pon­ta dos seus de­dos es­ta­va pre­ta de óleo de mo­tor, en­car­di­da de uma for­ma que sa­bo­ne­te ne­nhum con­se­guia lim­par com­ple­ta­men­te. Ele olhou para a co­zi­nha som­bria, para a xí­ca­ra in­to­ca­da, para o cin­zei­ro trans­bor­dan­do e, por fim, para o pai. O si­lên­cio en­tre eles não era pa­cí­fi­co; era um cam­po mi­na­do de pa­la­vras não di­tas.

— O chei­ro des­sa fu­ma­ça está im­preg­nan­do a casa in­tei­ra. — dis­se Ro­bert, a voz gra­ve e ás­pe­ra pelo can­sa­ço ma­ti­nal. — A Vicky re­cla­mou on­tem à noi­te. Dis­se que não con­se­gue dor­mir.

Pe­ter não re­tru­cou. Ele apa­gou o ci­gar­ro no vi­dro do cin­zei­ro com um mo­vi­men­to len­to.

— Bom dia para você tam­bém, Ro­bert.

O sar­cas­mo can­sa­do de Pe­ter pa­re­ceu es­go­tar a pou­ca pa­ci­ên­cia que o fi­lho pos­su­ía. Ro­bert atra­ves­sou o li­nó­leo des­bo­ta­do da co­zi­nha e jo­gou o en­ve­lo­pe par­do so­bre a mesa, bem em cima do ros­to im­pres­so no jor­nal ve­lho. Um ca­rim­bo ver­me­lho e agres­si­vo mar­ca­va o pa­pel.

— Avi­so fi­nal, pai. — Ro­bert apon­tou para o en­ve­lo­pe. — A com­pa­nhia de luz. Eles vão cor­tar a ener­gia na sex­ta-fei­ra se não pa­gar­mos as fa­tu­ras atra­sa­das dos úl­ti­mos três me­ses.

Pe­ter en­ca­rou o en­ve­lo­pe como se fos­se um in­se­to ve­ne­no­so.

— Eu vou re­sol­ver isso. O ge­ren­te do ban­co e eu... nós con­ver­sa­mos.

— Men­ti­ra. — re­ba­teu Ro­bert, a pa­la­vra cor­tan­do o ar como uma na­va­lha. Ele apoi­ou as duas mãos na mesa, in­cli­nan­do-se so­bre o pai, a frus­tra­ção trans­bor­dan­do de cada mús­cu­lo ten­so do seu pes­co­ço. — O se­nhor não sai des­ta casa há oito dias. O se­nhor não aten­de o te­le­fo­ne. Eu fui ao ban­co on­tem no meu ho­rá­rio de al­mo­ço. Eles blo­que­a­ram a con­ta con­jun­ta por­que as as­si­na­tu­ras dela pre­ci­sam de va­li­da­ção ju­di­ci­al. A sua con­ta pes­so­al está no ver­me­lho. O di­nhei­ro que eu ga­nho na ofi­ci­na mal dá para a co­mi­da.

— Eu dis­se que vou re­sol­ver, Ro­bert! — A voz de Pe­ter ele­vou-se, um eco de au­to­ri­da­de pa­tri­ar­cal que soou fra­co, que­bra­do nas bor­das. Ele le­vou a mão à tes­ta, onde o fan­tas­ma do zum­bi­do ain­da la­te­ja­va. — Pre­ci­so ape­nas or­ga­ni­zar os qua­dros do ate­liê... pos­so ven­dê-los para a ga­le­ria em Cal­lar­gon.

— Nin­guém quer com­prar pin­tu­ras me­lan­có­li­cas de um ho­mem que não sai da co­zi­nha. — A cru­e­za na voz de Ro­bert não ti­nha a in­ten­ção de ser cru­el, mas era a úni­ca lin­gua­gem que a so­bre­vi­vên­cia lhe per­mi­tia ago­ra. Ele re­cu­ou um pas­so, pas­san­do a mão pe­los ca­be­los loi­ros e des­gre­nha­dos. — Pai, olhe para nós. O Dean pas­sou as úl­ti­mas qua­tro ho­ras de­bai­xo de chu­va fina no quin­tal, en­ca­ran­do a ter­ra mor­ta onde a mãe plan­ta­va aque­las ro­sas azuis. Ele tem dez anos e não diz uma pa­la­vra há duas se­ma­nas. A Vicky se tran­cou no quar­to com um rá­dio ve­lho, ou­vin­do aque­las fi­tas que a mãe gra­va­va, ten­tan­do achar al­gu­ma pis­ta onde não exis­te nada. E eu... eu es­tou ten­tan­do se­gu­rar as pa­re­des des­sa casa com as mãos nuas.

Pe­ter en­go­liu em seco. A men­ção de Anel­li­se e do es­ta­do das cri­an­ças era um pu­nhal gi­ran­do em seu es­tô­ma­go.

— A sua mãe...

— A nos­sa mãe se foi, pai. — Ro­bert ba­teu a mão es­pal­ma­da na mesa, o som es­ta­lan­do como um tiro na qui­e­tu­de da casa. A xí­ca­ra de chá cha­co­a­lhou no pi­res.

A res­pi­ra­ção de Pe­ter pa­rou. Os olhos do pai ar­re­ga­la­ram-se, não de rai­va, mas de um ter­ror pa­ra­li­san­te di­an­te da vo­ca­li­za­ção da­que­le pe­sa­de­lo.

— Não ouse. — sus­sur­rou Pe­ter, a voz tre­men­do, os nós dos de­dos fi­can­do bran­cos en­quan­to ele se agar­ra­va às bor­das da mesa. — Não ouse di­zer isso. A po­lí­cia não sabe de nada. O mun­do não sabe de nada. Ela não está mor­ta. Ela não nos aban­do­nou. Há algo er­ra­do, Ro­bert. Algo fun­da­men­tal­men­te er­ra­do. O ar nes­ta ci­da­de, o jei­to como as coi­sas su­mi­ram... eu sin­to. Eu a sin­to aqui, não como uma me­mó­ria, mas como uma pre­sen­ça si­len­ci­a­da. Há uma ex­pli­ca­ção. Tem que ha­ver.

Ro­bert olhou para o pai, e a rai­va no ros­to do jo­vem deu lu­gar a uma ex­pres­são mui­to mais do­lo­ro­sa: pura e ab­so­lu­ta pena. Aque­la era a tra­gé­dia fi­nal. O pa­tri­ar­ca da fa­mí­lia Camp­bell, o ho­mem que sem­pre ti­ve­ra res­pos­tas para tudo, ago­ra es­ta­va agar­ra­do a de­lí­ri­os su­pers­ti­ci­o­sos, en­lou­que­cen­do len­ta­men­te na co­zi­nha en­quan­to as con­tas se acu­mu­la­vam.

— Ela não vai vol­tar an­dan­do por aque­la por­ta, pai. — dis­se Ro­bert, a voz ca­in­do para um mur­mú­rio der­ro­ta­do. — Se não acei­tar­mos isso, va­mos to­dos afun­dar.

Sem es­pe­rar res­pos­ta, Ro­bert deu as cos­tas ao pai. O som de suas pe­sa­das bo­tas de tra­ba­lho ar­ras­tou-se pelo as­so­a­lho em di­re­ção ao cor­re­dor. An­tes de su­mir pela por­ta da fren­te para mais um dia de tra­ba­lho me­câ­ni­co e fuga da re­a­li­da­de, ele pa­rou por um se­gun­do, sem olhar para trás.

— Ten­te ar­ran­jar o di­nhei­ro para a luz. Eu não que­ro que os meus ir­mãos fi­quem no es­cu­ro. As som­bras já es­tão gran­des o su­fi­ci­en­te nes­ta casa.

A por­ta da fren­te ba­teu com um som aba­fa­do pela ne­bli­na ex­ter­na. So­zi­nho no­va­men­te, Pe­ter afun­dou o ros­to nas mãos. A casa vol­tou ao seu si­lên­cio mons­tru­o­so, in­ter­rom­pi­do ape­nas pelo tic-tac do re­ló­gio de pên­du­lo e pelo som dis­tan­te do ven­to de Con­nor Wells as­so­bi­an­do pe­las fres­tas das ja­ne­las de ma­dei­ra. O zum­bi­do no ou­vi­do de Pe­ter re­tor­nou, mais bran­do des­ta vez, uma pres­são in­cô­mo­da que pa­re­cia que­rer aler­tá-lo de um pe­ri­go que ele não con­se­guia ver. Ele olhou para a ja­ne­la em­ba­ça­da. O mun­do lá fora es­ta­va cin­za, opa­co e hos­til. Ro­bert acha­va que as pa­re­des da casa es­ta­vam de­sa­ban­do por cau­sa do luto e do di­nhei­ro. Mas, no fun­do de seu ser, num lu­gar que a ló­gi­ca hu­ma­na não al­can­ça­va, Pe­ter sa­bia que as fun­da­ções de sua vida ha­vi­am ra­cha­do por­que ha­via algo lá fora, na es­cu­ri­dão, es­pe­ran­do que eles fe­chas­sem os olhos.

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