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Capítulo 1

Ela é (meio que) minha...

Amante por Acidente · por K. Aminah

ANNE

— Você está me le­van­do a lou­cu­ra.

— Es­tou le­van­do o se­nhor ao seu des­ti­no — res­pon­di pron­ta­men­te.

Jo­nathan Ha­e­se to­mou um gole de seu café na xí­ca­ra de por­ce­la­na en­quan­to me olha­va pelo es­pe­lho re­tro­vi­sor. “Por­ce­la­na” de ver­da­de; a xí­ca­ra (como ele ex­pli­cou ao en­trar no car­ro) ha­via sido es­cul­pi­da por um mes­tre chi­nês 200 anos an­tes.

— Um pre­sen­te de um di­plo­ma­ta chi­nês — dis­se o Sr. Ha­e­se. Ah, cla­ro. Aque­la mal­di­ta xí­ca­ra so­bre­vi­veu a dois sé­cu­los e ia que­brar en­quan­to eu di­ri­gia. Aper­tei os de­dos no vo­lan­te re­ves­ti­do de cou­ro.

Ah, mas não vai mes­mo! Não quan­do eu ain­da não ti­nha con­se­gui­do um em­pre­go de­cen­te para pa­gar mi­nhas men­sa­li­da­des da fa­cul­da­de. De­pois que meu avô se apo­sen­tou como mo­to­ris­ta da fa­mí­lia Ha­e­se, ele me in­di­cou para essa en­tre­vis­ta. Mi­nha úl­ti­ma chan­ce de não ter que tra­ba­lhar à noi­te em uma rede de fast food.

Se­gu­rei o vo­lan­te do sedã pre­to com o de­ses­pe­ro de al­guém que não con­se­guiu ne­nhu­ma bol­sa de es­tu­dos.

— Cla­ra­men­te, você tem o mes­mo sen­so de hu­mor que seu avô — res­mun­gou Jo­nathan Ha­e­se.

Eu sor­ri.

— O vovô é hi­lá­rio.

— Não é não.

— Sim, se­nhor.

As ruas es­ta­vam bem va­zi­as para aque­la hora da ma­nhã. Eu tive sor­te. Não era um bom mo­men­to para sair an­dan­do na­que­le frio cor­tan­te. Eu não es­ta­va nem um pou­co an­si­o­sa para dei­xar os ban­cos quen­tes.

— Por que tão de­va­gar? Não tem um úni­co car­ro na nos­sa fren­te.

— Es­tou no li­mi­te de ve­lo­ci­da­de, se­nhor.

— Para uma zona es­co­lar! — ele ros­nou.

— Me des­cul­pe, mas está cho­ven­do. Sua se­gu­ran­ça é mi­nha pri­o­ri­da­de.

Na ver­da­de, con­se­guir ser con­tra­ta­da era a mi­nha pri­o­ri­da­de. Mi­nha lis­ta de me­tas para este ano era bem sim­ples:

1. Su­pe­rar o medo de en­tre­vis­tas de em­pre­go. (Não es­tra­gar tudo!)

2. Su­pe­rar o medo de in­ti­mi­da­de. (A úni­ca vir­gem na sala des­de o en­si­no fun­da­men­tal… Pois é.)

3. Su­pe­rar o medo de tro­vões. (Ape­sar de eu amar chu­va.)

4. Medo de fi­nais fe­li­zes. (Nem todo re­la­ci­o­na­men­to pre­ci­sa ter­mi­nar mal… como o dos meus pais.)

Meu ob­je­ti­vo para este ano era me tor­nar for­te, de­ter­mi­na­da, des­te­mi­da. E o pri­mei­ro pas­so rumo a essa mu­dan­ça era con­se­guir um em­pre­go onde eu não sa­ís­se chei­ran­do a gor­du­ra.

— Che­ga­mos, Sr. Ha­e­se — anun­ci­ei.

No ban­co de trás, Jo­nathan Ha­e­se as­sen­tiu. Ele não pa­re­ceu im­pres­si­o­na­do, em­bo­ra o café dele es­ti­ves­se in­tac­to. Saí pri­mei­ro para abrir a por­ta para ele.

— No ho­rá­rio — apon­tei.

Jo­nathan Ha­e­se saiu do car­ro em to­dos os seus um me­tro e no­ven­ta e tan­tos de pura im­po­nên­cia, ves­tin­do um ter­no ita­li­a­no e exa­lan­do chei­ro de sân­da­lo. Sân­da­lo de ver­da­de, não aque­le in­cen­so ba­ra­to da lo­ji­nha de um e no­ven­ta e nove.

An­tes de sair de casa, meu avô me fez es­tu­dar so­bre o atu­al CEO de uma das mai­o­res in­dús­tri­as de cos­mé­ti­cos do mun­do. Ele ti­nha dou­to­ra­do por Ox­ford, era o mais ve­lho de qua­tro ir­mãos, ha­via com­ple­ta­do dez ma­ra­to­nas (de cor­ri­das, não de sé­ri­es... vovô dei­xou isso bem cla­ro) e era ca­sa­do com sua na­mo­ra­da do en­si­no mé­dio, Cas­san­dra Ha­e­se. Ain­da as­sim, ne­nhu­ma fo­to­gra­fia ti­nha me pre­pa­ra­do para Jo­nathan Ha­e­se em pes­soa.

— O que você está olhan­do?

Meus de­dos se atra­pa­lha­ram na ma­ça­ne­ta da por­ta do car­ro en­quan­to eu a abria para ele.

— N-NADA! — eu dis­se, ten­tan­do me afas­tar ime­di­a­ta­men­te dele e de um pos­sí­vel pro­ces­so por as­sé­dio se­xu­al.

Era tão irô­ni­co como eu pas­sei os úl­ti­mos vin­te mi­nu­tos ten­tan­do di­ri­gir com su­a­vi­da­de para não der­ra­mar o café da xí­ca­ra de por­ce­la­na, mas aca­bei tro­pe­çan­do no gelo no es­ta­ci­o­na­men­to e ca­in­do… no Sr. Ha­e­se.

Para ser jus­ta, foi ele quem sol­tou o copo para con­se­guir me se­gu­rar an­tes que eu me cho­cas­se con­tra ele. Aca­bei em­pur­ran­do-o de vol­ta para den­tro do car­ro. O mun­do pa­rou por um se­gun­do. Por um se­gun­do, exis­ti­am ape­nas os bra­ços for­tes dele ao re­dor do meu cor­po. A for­ça com que ele me se­gu­ra­va, ten­tan­do man­ter o equi­lí­brio. Le­van­tei a ca­be­ça e en­ca­rei pro­fun­da­men­te aque­les olhos azuis. De lon­ge, pa­re­ci­am ge­la­dos, mas de per­to eram uma tem­pes­ta­de. Tal­vez por­que ele es­ti­ves­se fu­ri­o­so.

— QUE DRO­GA-

An­tes que Jo­nathan Ha­e­se pu­des­se ter­mi­nar o xin­ga­men­to, eu me le­van­tei. Con­ti­nu­ei re­cu­an­do até fi­car pren­sa­da con­tra ou­tro car­ro. Como um ra­ti­nho que deu de cara com um pre­da­dor, sen­ti como se ti­ves­se tro­pe­ça­do na pró­pria mor­te. Qua­se des­mai­ei. Mi­nha nos­sa! Como eu que­ria ter des­mai­a­do.

— OH, NÃO. Me des­cul­pe, se­nhor. OH, NÃO. Eu vou pa­gar pela xí­ca­ra, nem que leve a vida in­tei­ra. OH, NÃO-OH NÃO-OH NÃO. Sin­to mui­to mes­mo.

— Pode apos­tar que vai — ros­nou Jo­nathan Ha­e­se, com a mão na ca­be­ça.

Eu es­tou tão fer­ra­da, pen­sei.

Es­ten­di a mão para aju­dá-lo a sair do car­ro, mas ele se le­van­tou so­zi­nho. Pa­re­cia que ia me de­mi­tir an­tes mes­mo de me con­tra­tar, quan­do uma voz fe­mi­ni­na eco­ou:

— EU SA­BIA!

Uma mu­lher de ca­be­los ne­gros atra­ves­sou o es­ta­ci­o­na­men­to o mais rá­pi­do que seus Lou­bou­tins ver­me­lhos per­mi­ti­am. Uma ex­pres­são de pura fú­ria dis­tor­cia seu ros­to, que em ou­tras cir­cuns­tân­ci­as de­via ser lin­do. Ah, eu a co­nhe­cia. Qual­quer pes­soa que les­se a se­ção de ca­ri­da­de da re­vis­ta Vo­gue pro­va­vel­men­te tam­bém a co­nhe­cia. Cas­san­dra Ha­e­se.

A Es­po­sa.

A es­po­sa dele.

— Mi­nha que­ri­da — dis­se Jo­nathan Ha­e­se. — Não é o que você está pen­san­do.

— Ah, cla­ro, nin­guém pas­sa tan­to tem­po as­sim no es­cri­tó­rio. Tra­ba­lhan­do, Jo­nathan? TRA­BA­LHAN­DO?

A voz da Sra. Ha­e­se me fez me agar­rar ao re­tro­vi­sor do car­ro des­co­nhe­ci­do. Não sei se foi a voz dela ou se o car­ro con­se­guiu sen­tir meu pâ­ni­co, mas o alar­me dis­pa­rou — bip, bip, bip — cha­man­do a aten­ção de to­dos no es­ta­ci­o­na­men­to da sede das In­dús­tri­as Ha­e­se. O som de um tapa me fez en­gas­gar. Foi tão rá­pi­do que mal vi quan­do ela atin­giu o Sr. Ha­e­se. Mi­nhas mãos vo­a­ram até a boca.

— Isso é um en­ga­no, Cas­sie. Ela é mi­nha…

— Sua? — ru­giu a Sra. Ha­e­se, vin­do na mi­nha di­re­ção.

Fe­chei os olhos e me en­co­lhi, es­pe­ran­do o tapa. Mas nada veio. A mão de Jo­nathan Ha­e­se agar­rou o pul­so da es­po­sa a pou­cos cen­tí­me­tros do meu ros­to.

Me pro­te­gen­do.

Tal­vez eu de­ves­se ter co­lo­ca­do “não es­tar ten­do um caso” na mi­nha lis­ta des­te ano.

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