ANNE
— Você está me levando a loucura.
— Estou levando o senhor ao seu destino — respondi prontamente.
Jonathan Haese tomou um gole de seu café na xícara de porcelana enquanto me olhava pelo espelho retrovisor. “Porcelana” de verdade; a xícara (como ele explicou ao entrar no carro) havia sido esculpida por um mestre chinês 200 anos antes.
— Um presente de um diplomata chinês — disse o Sr. Haese. Ah, claro. Aquela maldita xícara sobreviveu a dois séculos e ia quebrar enquanto eu dirigia. Apertei os dedos no volante revestido de couro.
Ah, mas não vai mesmo! Não quando eu ainda não tinha conseguido um emprego decente para pagar minhas mensalidades da faculdade. Depois que meu avô se aposentou como motorista da família Haese, ele me indicou para essa entrevista. Minha última chance de não ter que trabalhar à noite em uma rede de fast food.
Segurei o volante do sedã preto com o desespero de alguém que não conseguiu nenhuma bolsa de estudos.
— Claramente, você tem o mesmo senso de humor que seu avô — resmungou Jonathan Haese.
Eu sorri.
— O vovô é hilário.
— Não é não.
— Sim, senhor.
As ruas estavam bem vazias para aquela hora da manhã. Eu tive sorte. Não era um bom momento para sair andando naquele frio cortante. Eu não estava nem um pouco ansiosa para deixar os bancos quentes.
— Por que tão devagar? Não tem um único carro na nossa frente.
— Estou no limite de velocidade, senhor.
— Para uma zona escolar! — ele rosnou.
— Me desculpe, mas está chovendo. Sua segurança é minha prioridade.
Na verdade, conseguir ser contratada era a minha prioridade. Minha lista de metas para este ano era bem simples:
1. Superar o medo de entrevistas de emprego. (Não estragar tudo!)
2. Superar o medo de intimidade. (A única virgem na sala desde o ensino fundamental… Pois é.)
3. Superar o medo de trovões. (Apesar de eu amar chuva.)
4. Medo de finais felizes. (Nem todo relacionamento precisa terminar mal… como o dos meus pais.)
Meu objetivo para este ano era me tornar forte, determinada, destemida. E o primeiro passo rumo a essa mudança era conseguir um emprego onde eu não saísse cheirando a gordura.
— Chegamos, Sr. Haese — anunciei.
No banco de trás, Jonathan Haese assentiu. Ele não pareceu impressionado, embora o café dele estivesse intacto. Saí primeiro para abrir a porta para ele.
— No horário — apontei.
Jonathan Haese saiu do carro em todos os seus um metro e noventa e tantos de pura imponência, vestindo um terno italiano e exalando cheiro de sândalo. Sândalo de verdade, não aquele incenso barato da lojinha de um e noventa e nove.
Antes de sair de casa, meu avô me fez estudar sobre o atual CEO de uma das maiores indústrias de cosméticos do mundo. Ele tinha doutorado por Oxford, era o mais velho de quatro irmãos, havia completado dez maratonas (de corridas, não de séries... vovô deixou isso bem claro) e era casado com sua namorada do ensino médio, Cassandra Haese. Ainda assim, nenhuma fotografia tinha me preparado para Jonathan Haese em pessoa.
— O que você está olhando?
Meus dedos se atrapalharam na maçaneta da porta do carro enquanto eu a abria para ele.
— N-NADA! — eu disse, tentando me afastar imediatamente dele e de um possível processo por assédio sexual.
Era tão irônico como eu passei os últimos vinte minutos tentando dirigir com suavidade para não derramar o café da xícara de porcelana, mas acabei tropeçando no gelo no estacionamento e caindo… no Sr. Haese.
Para ser justa, foi ele quem soltou o copo para conseguir me segurar antes que eu me chocasse contra ele. Acabei empurrando-o de volta para dentro do carro. O mundo parou por um segundo. Por um segundo, existiam apenas os braços fortes dele ao redor do meu corpo. A força com que ele me segurava, tentando manter o equilíbrio. Levantei a cabeça e encarei profundamente aqueles olhos azuis. De longe, pareciam gelados, mas de perto eram uma tempestade. Talvez porque ele estivesse furioso.
— QUE DROGA-
Antes que Jonathan Haese pudesse terminar o xingamento, eu me levantei. Continuei recuando até ficar prensada contra outro carro. Como um ratinho que deu de cara com um predador, senti como se tivesse tropeçado na própria morte. Quase desmaiei. Minha nossa! Como eu queria ter desmaiado.
— OH, NÃO. Me desculpe, senhor. OH, NÃO. Eu vou pagar pela xícara, nem que leve a vida inteira. OH, NÃO-OH NÃO-OH NÃO. Sinto muito mesmo.
— Pode apostar que vai — rosnou Jonathan Haese, com a mão na cabeça.
Eu estou tão ferrada, pensei.
Estendi a mão para ajudá-lo a sair do carro, mas ele se levantou sozinho. Parecia que ia me demitir antes mesmo de me contratar, quando uma voz feminina ecoou:
— EU SABIA!
Uma mulher de cabelos negros atravessou o estacionamento o mais rápido que seus Louboutins vermelhos permitiam. Uma expressão de pura fúria distorcia seu rosto, que em outras circunstâncias devia ser lindo. Ah, eu a conhecia. Qualquer pessoa que lesse a seção de caridade da revista Vogue provavelmente também a conhecia. Cassandra Haese.
A Esposa.
A esposa dele.
— Minha querida — disse Jonathan Haese. — Não é o que você está pensando.
— Ah, claro, ninguém passa tanto tempo assim no escritório. Trabalhando, Jonathan? TRABALHANDO?
A voz da Sra. Haese me fez me agarrar ao retrovisor do carro desconhecido. Não sei se foi a voz dela ou se o carro conseguiu sentir meu pânico, mas o alarme disparou — bip, bip, bip — chamando a atenção de todos no estacionamento da sede das Indústrias Haese. O som de um tapa me fez engasgar. Foi tão rápido que mal vi quando ela atingiu o Sr. Haese. Minhas mãos voaram até a boca.
— Isso é um engano, Cassie. Ela é minha…
— Sua? — rugiu a Sra. Haese, vindo na minha direção.
Fechei os olhos e me encolhi, esperando o tapa. Mas nada veio. A mão de Jonathan Haese agarrou o pulso da esposa a poucos centímetros do meu rosto.
Me protegendo.
Talvez eu devesse ter colocado “não estar tendo um caso” na minha lista deste ano.