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Capítulo 1

Vagalumes Vermelhos

Um olhar sob a neblina · por Lu Cavichioli

Ca­pí­tu­lo 1 -

Con­tam à boca pe­que­na que o lu­gar era amal­di­ço­a­do, no en­tan­to para Smith isso não im­por­ta­va.

Tor­na­ra-se um ho­mem cé­ti­co, vi­via mu­dan­do de ci­da­de, até que ad­qui­riu um imó­vel an­ti­go no meio do nada. Era uma casa es­ti­lo vi­to­ri­a­no com três an­da­res e um só­tão, que as ve­zes se ilu­mi­na­va so­zi­nho.

O ter­re­no à vol­ta da pro­pri­e­da­de era ári­do, mór­bi­do e tris­te. Atrás da casa ha­via res­quí­ci­os de um jar­dim há mui­to es­que­ci­do. Can­tei­ros la­de­a­dos por pe­dras es­que­ci­das pela na­tu­re­za onde o lim­bo rei­na­va tão re­lu­zen­te quan­to um ban­do de va­ga­lu­mes. Ga­lhos e res­tos de clo­ro­fi­la exi­bi­am a mor­te tem todo o ter­re­no. No cen­tro des­te jar­dim fu­nes­to ha­via uma fon­te que se tor­na­ra o ber­ço de fo­lhas tris­tes que se ati­ra­vam de­ses­pe­ra­das da­que­las ár­vo­res de apa­rên­cia mi­le­nar.

Ao che­gar na pro­pri­e­da­de tra­zia con­si­go uma ve­lha ma­le­ta de mão e uma mo­chi­la, onde pos­si­vel­men­te, guar­da­va sua vida.

Seu ros­to cra­que­la­do de sol e bar­ba por fa­zer lhe con­fe­ri­am uma apa­rên­cia de car­ras­co, sem ex­pres­são, ou qual­quer mí­mi­ca fa­ci­al que pu­des­se de­mons­trar emo­ções.

Quan­do aden­trou à casa, deu de cara com am­plas sa­las e can­de­la­bros de pra­ta so­bre pe­ças de ma­dei­ra ma­ci­ça e mui­to bem cui­da­das, po­rém algo lhe cha­mou aten­ção, as ve­las dos can­de­la­bros es­ta­vam ace­sas. Es­tra­nha vi­são aque­la, no en­tan­to, ele deu de om­bros e su­biu as es­ca­das lar­gas de um már­mo­re es­bran­qui­ça­do. Ao che­gar no topo, re­pa­rou que o cor­re­dor ia para os dois la­dos es­ten­den­do-se até o fi­nal, onde ha­via uma ja­ne­la com vi­trais mui­to co­lo­ri­dos. Olhou para bai­xo e viu que o piso era acar­pe­ta­do de ve­lu­do ver­me­lho. Pa­rou bem no meio e de­ci­diu, sabe-se lá por­que, ir pra di­rei­ta. Ao ca­mi­nhar per­ce­beu que toda a ex­ten­são da pa­re­de era co­ber­ta por mol­du­ras an­ti­gas e to­das con­ti­nhas ros­tos de pes­so­as no­bres em tra­jes de gala. En­quan­to pas­sa­va por eles de­vol­via olha­res du­vi­do­sos com um cer­to des­dém e sor­ri­so cí­ni­co que es­cor­ria pelo can­to da boca. Mais ao cen­tro do cor­re­dor, os qua­dros mu­da­ram, eram ago­ra des­bo­ta­das, e qua­se no fim, ou­tras pin­tu­ras sur­gi­ram, exi­bin­do fa­mí­li­as in­tei­ras, fi­gu­rões ca­re­cas de ros­to am­plo, bi­go­des enor­mes e re­tor­ci­dos. Po­rém, hou­ve um qua­dro que o fez es­tan­car o pas­so, ar­re­ga­lan­do seus olhos opa­cos. Era uma dama.

Pele alva e colo ar­re­ba­ta­dor. A face era ro­sa­da e um lin­do co­que pre­so no alto da ca­be­ça ador­na­do por um pen­te na­ca­ra­do que emol­du­ra­va uma be­le­za he­lê­ni­ca. Essa mu­lher sor­ria como um anjo e o con­tras­te rui­vo do ca­be­lo con­tra­ce­na­va com seus olhos ver­des.

Smith lar­gou as ma­las sem for­ças, e seus olhos sem bri­lho mos­tra­ram que ain­da po­de­ri­am ser po­vo­a­dos de es­tre­las. En­tão ro­çou seus de­dos no ros­to dela, bal­bu­ci­ou algo que só ele ou­viu... tal­vez o som do co­ra­ção.

Fi­cou ali meio hip­no­ti­za­do até que saiu do tran­se e abriu uma das por­tas ale­a­to­ri­a­men­te. Quan­do en­trou fi­cou es­tá­ti­co no­va­men­te.

Com es­pan­to olhou em vol­ta, mas tam­bém lhe deu um cer­to alí­vio pelo con­for­to. O quar­to era am­plo e com ba­nhei­ro pri­va­ti­vo.

A cama enor­me os­ten­ta­va al­mo­fa­das e rou­pas de ba­nho lim­pas, bem como os len­çóis bor­da­dos e os co­ber­to­res de pura lã de ove­lha.

Olhou para a mesa de ca­be­cei­ra e viu ou­tro can­de­la­bro e mis­te­ri­o­sa­men­te es­ta­va com ve­las ace­sas. Smith re­tor­ceu os lá­bi­os, olhou em vol­ta e co­me­çou a sus­pei­tar que al­guém es­ti­ves­se mo­ran­do ali, mas quan­do ad­qui­riu a pro­pri­e­da­de, lhe dis­se­ram que es­ta­va va­zia há tem­pos. Ca­mi­nhou pou­cos pas­sos e foi até a ja­ne­la e afas­tou as cor­ti­nas, e foi quan­do a viu. Os olhos cor de fogo o fi­ta­ram de tal modo que Smith pe­tri­fi­cou. En­go­liu a seco e re­sol­veu que ia mata-la.

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