Capítulo 1 -
Contam à boca pequena que o lugar era amaldiçoado, no entanto para Smith isso não importava.
Tornara-se um homem cético, vivia mudando de cidade, até que adquiriu um imóvel antigo no meio do nada. Era uma casa estilo vitoriano com três andares e um sótão, que as vezes se iluminava sozinho.
O terreno à volta da propriedade era árido, mórbido e triste. Atrás da casa havia resquícios de um jardim há muito esquecido. Canteiros ladeados por pedras esquecidas pela natureza onde o limbo reinava tão reluzente quanto um bando de vagalumes. Galhos e restos de clorofila exibiam a morte tem todo o terreno. No centro deste jardim funesto havia uma fonte que se tornara o berço de folhas tristes que se atiravam desesperadas daquelas árvores de aparência milenar.
Ao chegar na propriedade trazia consigo uma velha maleta de mão e uma mochila, onde possivelmente, guardava sua vida.
Seu rosto craquelado de sol e barba por fazer lhe conferiam uma aparência de carrasco, sem expressão, ou qualquer mímica facial que pudesse demonstrar emoções.
Quando adentrou à casa, deu de cara com amplas salas e candelabros de prata sobre peças de madeira maciça e muito bem cuidadas, porém algo lhe chamou atenção, as velas dos candelabros estavam acesas. Estranha visão aquela, no entanto, ele deu de ombros e subiu as escadas largas de um mármore esbranquiçado. Ao chegar no topo, reparou que o corredor ia para os dois lados estendendo-se até o final, onde havia uma janela com vitrais muito coloridos. Olhou para baixo e viu que o piso era acarpetado de veludo vermelho. Parou bem no meio e decidiu, sabe-se lá porque, ir pra direita. Ao caminhar percebeu que toda a extensão da parede era coberta por molduras antigas e todas continhas rostos de pessoas nobres em trajes de gala. Enquanto passava por eles devolvia olhares duvidosos com um certo desdém e sorriso cínico que escorria pelo canto da boca. Mais ao centro do corredor, os quadros mudaram, eram agora desbotadas, e quase no fim, outras pinturas surgiram, exibindo famílias inteiras, figurões carecas de rosto amplo, bigodes enormes e retorcidos. Porém, houve um quadro que o fez estancar o passo, arregalando seus olhos opacos. Era uma dama.
Pele alva e colo arrebatador. A face era rosada e um lindo coque preso no alto da cabeça adornado por um pente nacarado que emoldurava uma beleza helênica. Essa mulher sorria como um anjo e o contraste ruivo do cabelo contracenava com seus olhos verdes.
Smith largou as malas sem forças, e seus olhos sem brilho mostraram que ainda poderiam ser povoados de estrelas. Então roçou seus dedos no rosto dela, balbuciou algo que só ele ouviu... talvez o som do coração.
Ficou ali meio hipnotizado até que saiu do transe e abriu uma das portas aleatoriamente. Quando entrou ficou estático novamente.
Com espanto olhou em volta, mas também lhe deu um certo alívio pelo conforto. O quarto era amplo e com banheiro privativo.
A cama enorme ostentava almofadas e roupas de banho limpas, bem como os lençóis bordados e os cobertores de pura lã de ovelha.
Olhou para a mesa de cabeceira e viu outro candelabro e misteriosamente estava com velas acesas. Smith retorceu os lábios, olhou em volta e começou a suspeitar que alguém estivesse morando ali, mas quando adquiriu a propriedade, lhe disseram que estava vazia há tempos. Caminhou poucos passos e foi até a janela e afastou as cortinas, e foi quando a viu. Os olhos cor de fogo o fitaram de tal modo que Smith petrificou. Engoliu a seco e resolveu que ia mata-la.